Confira!

Todo leitor já passou por isso: o livro de repente deixa de ser apenas mais um, para se tornar o livro. Fica importante. Representa sentimentos e ideias. Vira relíquia.
De volta com a Sessão 10, decidi começar a falar dos livros que talvez tenham sido os mais significativos para mim. Alguns me divertiram, outros me chocaram... Outros, ainda, acabaram se tornando especiais por motivos inusitados, e por isso vou falar de alguns.

1- Não se esqueçam da rosa - Giselda Laporta Nicolelis




Apesar de já ter falado deste livro antes no último Caso de Leitora, senti a necessidade de citá-lo de novo, pelo quanto foi especial para mim.
Contando a história de uma menina que possui uma doença genética (resultado da radiação presente nas células de seu pai, que foi um sobrevivente da tragédia de Hiroshima), Não se esqueçam da rosa foi um dos primeiros livros que li na vida. Outros vieram antes dele, mas foi este que contribuiu para que eu amasse ler. Sua história - talvez um tanto melancólica demais para uma criança - é toda relatada pela menina que queria demais uma boneca com sua aparência. Pele morena de sua mãe, olhos puxados de seu pai.
Foi uma leitura realmente especial, que não poderia deixar de ser lembrada.




2- A sombra do vento - Carlos Ruiz Záfon



Eu era ainda uma menininha quando este livro chegou até mim. Foi sucesso de vendas, eu me lembro. Devia ter uns treze anos quando o li, e até hoje desejo ler de novo.
Imagine encontrar um livro raro, e considerar seu autor (totalmente desconhecido) um gênio. E ainda descobrir que alguém anda queimando todos os exemplares de todos os livros já publicados por este escritor, como se pretendesse apagá-lo para sempre da lembrança das pessoas. O jovem Daniel Sempere está passando por isso. E o leitor, inocente, sequer imagina o que há por trás de tal mistério!
Neste que provavelmente é o volume mais famoso de Záfon, uma história puxa outra, e para que todas se desenrolem de uma vez, tudo gira em torno do enigma da vida de Júlian Carax, autor do livro fictício A sombra do vento. Descobrir o drama de seu passado pode ser chocante, mas explorar o pouco que cada personagem sabia sobre ele, e alcançar seu maior segredo, será profundamente maravilhoso!


3- Os 13 Porquês - Jay Asher


Costumo dizer que é um dos melhores livros que já li. Talvez seja pelo que estava enfrentando na época, quando os meus quatorze anos eram ameaçados por problemas familiares e crises existenciais. Eu tinha dúvidas e dilemas, e eis que Hannah Baker entra em minha vida e sai da de Clay Jensen, uma voz fantasma que conta os motivos pelo qual uma garota jovem e bonita comete suicídio.
As fitas estão na caixa de sapatos, e quem as recebe, é culpado. Clay não sabe o que fez. Deve ouvir até o fim, e passar para a próxima pessoa. Estas são as regras, e ninguém correrá o risco de não atender ao último desejo de Hannah.
Não é que eu tenha gosto por coisas mórbidas ou tristes. A importância que Os 13 Porquês teve para mim está mais ligada à mensagem que passa. Com ele aprendi que devemos considerar os sentimentos dos outros; devemos saber nos colocar no lugar da outra pessoa; devemos ser mais sensíveis com a dor alheia. Só é lamentável que os personagens de Jay Asher não soubessem disso.

4- Leite Derramado - Chico Buarque


Genialmente escrito pelo cantor brasileiro Chico Buarque, Leite Derramado acompanha as lembranças de vida de Eulálio Assumpção, um senhor idoso e já doente, internado em um hospital, que fala sem parar de seu passado para sua filha e as enfermeiras, e também para o leitor, que se sente inserido no relato, passeando entre várias gerações de Eulálios de uma decadente família. Sem seguir uma ordem cronológica, ele alterna entre presente e passado, relatando fatos históricos do Brasil enquanto fala de si, de seu pai, avô, bisavô, sem desligar-se de sua visão de homem burguês atuante na política brasileira.
Quem é que deseja conversar interminavelmente com um velho? Quem deseja ouvir as histórias de seus parentes, de suas aventuras extraconjugais, de suas frustrações e alegrias? Pouca gente deve estar disposta a isso. Mas Eulálio não precisa de companhia para contar sua história. Até mesmo sozinho, ele permanece falando, página por página...

5- Luna Clara & Apolo Onze - Adriana Falcão

Voltado para crianças (e por isso, repleto de ilustrações divertidas, além da infinidade de personagens com nomes curiosos e da história mais do que maluca que a gente não descansa enquanto não termina), Luna Clara & Apolo Onze é de uma autora também brasileira, e posso resumi-lo com a palavra genial.
Luna Clara, que mora na cidade de Desatino do Norte, espera todos os dias pela chuva na entrada da cidade, pois sabe que quando ela vier, seu pai virá com ela. Apolo Onze, em Desatino do Sul, tem um monte de irmãs e é um jovem triste e desanimado. Ao longo de toda a história, esperamos que ambos se encontrem. E também que Doravante, o pai de Luna Clara, volte para sua Aventura. O inusitado surpreende até ao leitor mais cético, nessa história divertida e engraçada. Eu me peguei assim, rindo à toa com as situações inesperadas, analisando os desenhos, anotando o nome de cada personagem, numa lista interminável (são mesmo muitos!), e até hoje desejo poder reler essa história maravilhosa.


6- Antes que eu vá - Lauren Oliver


A ideia de dar importância aos sentimentos dos outros volta à nossa pauta com Antes que eu vá, em que Samantha Kingston, numa noite cruel, dá adeus à sua vida de popularidade, festas, roupas, amigos e futilidades para... morrer. Entretanto, após o acidente de carro, ela acorda em sua cama, e logo percebe que está revivendo o mesmo dia. Este se repetirá várias vezes, até que ela perceba em que parte vinha errando, e consiga não apenas concertar tudo, mas arrepender-se e também perdoar-se.
Aqui, assim como em Os 13 Porquês, a sensibilidade é o mais importante. Mesmo que pareça só mais um livro de adolescentes. Mesmo que Sam pareça só mais uma "patricinha chata do High School", temos muito a aprender com ela. Além disso, pude fazer uma imensa reflexão sobre o quanto nossas simples ações refletem direta ou indiretamente nas vidas de outras pessoas. Repetindo seu último dia de vida várias vezes, Sam descobre como um simples gesto, uma palavra dita, muda as coisas ao seu redor, ainda que parecesse não ter importância. Pegar esta reflexão para nossas vidas pode ser chocante.

7- Harry Potter e as relíquias da morte - J. K. Rowling

Pela popularidade que a Saga do bruxinho de óculos tem, talvez eu nem precise falar muito do que se trata o livro! Vou então falar apenas dos meus sentimentos ao longo da leitura!
Harry Potter já fazia parte da minha vida muito antes de eu começar a ler os livros. Já existiam os filmes, e vi os quatro primeiros sem compreender muito bem. Aos 13 anos, decidi ler, e não me arrependi de me aventurar no universo fantástico criado por J. K. Rowling. Eu queria descobrir qual era a verdadeira relação entre Voldemort e Harry, e saber se o título dizia algo sobre o futuro de Harry, mas terminar a saga era uma tragédia. Me despedir de tantos personagens divertidos, de tantas criaturas fascinantes, feitiços perigosos e voos de vassoura era profundamente triste.
Li As relíquias da morte como quem devora uma sobremesa, e depois se arrepende por não ter apreciado direito o saber. Entretanto, eu sofria com Harry, sentia sua solidão e suas dificuldades, e chorava a morte de cada personagem. Chegando ao fim, eu prometi a mim mesma que não esqueceria de todas as lições sobre amizade, lealdade, e também das contradições e conflitos aprendidos ao longo de todos os livros. Como se esquecer de Sirius falando de luz e trevas? Ou de Dumbledore e sua quase incompreensível sabedoria? Só quem também leu poderia saber do estou falando.

8- Inverno na manhã - Janina Bauman

Talvez o mais famoso dos diários da Segunda Guerra Mundial ou sobre o Holocausto seja O Diário de Anne Frank. Entretanto, o melhor de todos, para mim, será sempre este, pois foi o primeiro nesse estilo que li, e o choque que tive foi tão grande que jamais me permiti esquecê-lo.
Janina Bauman tinha 14 anos quando a Alemanha invadiu a Polônia, no início da II Guerra. E eu tinha 12 quando descobri este livro na biblioteca da escola. Vivendo no Gueto criado para judeus em Varsóvia, Janina sofreu os horrores da guerra. Passou fome, viu pessoas morrerem de maneira trágica, vivei injustiças e crueldades atrozes. Escondeu-se em porões e prédios abandonados, buscando sobreviver. Seus diários foram escondidos, e reencontrados após o fim da guerra, intactos.
Imagine como foi para uma menina ler tudo isso. As reflexões que teve sobre a maldade humana, e as lágrimas que derramou sobre as páginas, lendo uma história real. Acho que não preciso acrescentar nada.

9- Jornada pelo Rio Mar - Eva Ibbotson



Ambientado no início do século XX, Jornada pelo Rio Mar acompanha a trajetória de Maia, uma menina órfã que é enviada de Londres à Amazônia brasileira para viver com parentes distantes de cuja existência nem desconfiava. Acompanhada por sua governanta, a senhorita Minton, Maia embarca num navio, e chegando ao Brasil, se encanta com toda a riqueza, diversidade e beleza da floresta. Mesmo que a convivência com seus parentes não seja como esperava, ela se apaixona por sua nova vida.
Este livro faz parte de uma boa fase da minha vida, quando acredito que fiz minhas melhores leituras. É definitivamente inusitado pensar em algo assim, não? Eu também achei. E se cada página virada era uma nova surpresa, eu não pude deixar de me apaixonar pelas aventuras de Maia, e por vários outros personagens apresentados a mim neste volume simplesmente lindo.
Para quem valoriza as belezas naturais do Brasil, e o caráter diversificado e rico de sua cultura, essa história é mais do que maravilhosa.

10- O resto é silêncio - Erico Verissimo

Mais um brasileiro se encontra nessa lista, e dessa vez é o último. Posso dizer que O resto é silêncio é chocante por si mesmo, pois nada nele acontece do jeito convencional. Para começar, toda a sua história ocorre durante apenas dois dias, na década de 1940, em Porto Alegre. Sete pessoas presenciam uma morte terrível. Uma moça que cai (ou se joga?) do topo de um edifício. Nenhum destes personagens se conhece, e muitos nem chegam a se encontrar até o fim do livro. Cada um compõe seu próprio núcleo de personagens, que agem às vezes sem se conectarem com os outros núcleos. Tudo gira em torno na maneira que cada um deles encara a morte da moça, e do impacto que isto tem (ou não) em suas vidas.
Lidar com a morte já é em si algo muito difícil. Presenciá-la, pior ainda. E quando tudo indica seja um suicídio, as coisas podem ficar um tanto quanto complicadas. A sensibilidade do leitor é colocada a prova a cada nova reflexão, a cada novo conflito existencial. Para mim foi difícil, mas eu não podia parar de ler.


Como se pode ver, eu falei um pouco sobre a minha experiência com cada um desse títulos, e talvez tenha conseguido deixar claro como cada um deles foi ou ainda é importante para mim de alguma maneira. A respeito do título do post, 10 livros que me marcaram - parte 1, imaginei que logo (talvez daqui a alguns meses, ou um ano), eu já tenha mais livros especiais para destacar, e portanto, provavelmente vou precisar escrever a parte 2. Entretanto, nada está garantido.

Por: Lethycia Dias

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