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Resenha: O Diário de Anne Frank
"O depoimento da pequena Anne Frank, morta pelos nazistas após passar anos escondida no sótão de uma casa em Amsterdã, ainda hoje emociona leitores no mundo inteiro. Seu diário narra os sentimentos, medos e pequenas alegrias de uma menina judia que, com sua família, lutou em vão para sobreviver ao Holocausto. Lançado em 1947, O diário de Anne Frank tornou-se um dos maiores sucessos editoriais de todos os tempos. Um livro  tocante e importante que conta às novas gerações os horrores da perseguição aos judeus durante a Segunda Guerra Mundial. Agora, seis décadas após ter sido escrito, este relato finalmente é publicado na íntegra, com um caderno de fotos e o resgate de trechos que permaneciam inéditos. Uma nova edição que aprofunda e aumenta nossa compreensão da vida e da personalidade dessa menina que se transformou em um dos grandes símbolos da luta contra a opressão e a injustiça. E consagra O diário de Anne Frank como um dos livros de maior importância de século XX. Uma obra que deve ser lida por todos, para evitar que atrocidades parecidas voltem a acontecer no mundo.

Autores: Otto H. Frank e Mirjam Pressler
Gênero: Diário
Número de páginas: 352
Local e data de publicação: Rio de Janeiro, 2011
Tradução: Ivanir Alves Calado
Editora: Record
Onde comprar: Amazon | Saraiva

A menina que comoveu o mundo


Aproveitei o meu medo (sem fundamento) de ficar sem livros para ler durante a viagem que farei no fim dessa semana a Fortaleza, para reler este livro que encontrei na estante do meu pai. Eu li O Diário de Anne Frank há quase cinco anos, emprestado por uma conhecida. Foi uma leitura que não funcionou muito bem na época, e que justamente por isso eu sempre quis voltar a ler, a fim de enxergar com olhos mais maduros e fazer uma reflexão mais produtiva.
Acho que quase todo mundo sabe pelo menos o básico sobre Anne Frank: que ela foi uma menina judia que passou anos se escondendo dos nazistas no sótão de uma casa em Amsterdã, na Holanda. A história dela se popularizou após a publicação do diário que ela manteve no esconderijo, e essa foi a luta de toda a vida de seu pai, Otto H. Frank, depois de ter sobrevivido ao campo de concentração de Auschwitz. O que ele desejava era que o mundo soubesse o que sua família passou e compreendesse o que foi o Holocausto.
Anne Frank (1929-1945) era a filha mais nova de uma família de judeus alemães, que emigraram para a Holanda entre 1933 e 1934. Otto era diretor de uma empresa que fabricava ingredientes para geleias e os Frank tiveram uma vida relativamente tranquila e abastada durante os anos 30, até que em 1940 a Alemanha ocupou a Holanda e começou a fazer imposições sobre as vidas das pessoas, incluindo restrições à liberdade dos judeus, como por exemplo: judeus não podiam entrar em certos estabelecimentos, e em alguns, somente em determinados horários; não podiam dirigir e nem andar em carros ou o bonde; precisavam andar identificados com a Estrela de Davi, entre outras obrigações. 
Os Frank planejaram aos poucos a mudança para seu esconderijo, o Anexo Secreto, levando o que podiam. Anne Frank ganhou seu diário como um presente de aniversário em 12 de junho de 1942, e é aí que suas anotações começam. Em julho de 1942, Margot, irmã mais de velha de Anne, foi convocada a se apresentar em um campo de trabalho, e então a família precisou apressar sua mudança para o Anexo Secreto: uma instalação composta por três andares na parte superior do prédio em que funcionava o escritório da empresa de Otto Frank, a Opketa. A entrada era escondida por uma estante, que ocultava uma porta.
No Anéxo, viveram oito pessoas: Otto, Edith, Margot e Anne Frank; Hermann, Auguste e Peter van Pels (identificados por Anne como Hans, Petronella e Peter van Daan); e Fritz Pfeffer (identificado por Anne como Albert Dussel). Eles contavam com a ajuda de várias pessoas, incluindo os colegas de trabalho de Otto na Opketa, que lhes levavam comida e outras coisas de que necessitavam e ajudavam a manter em segredo sua presença no prédio da empresa. Para justificar seu desaparecimento e despistar os nazistas, os Frank espalharam de propósito boatos sobre terem deixado o país.
O diário de Anne é essencialmente pessoal. É composto pelos pensamentos e sentimentos de uma adolescente comum. As primeiras anotações dizem respeito a coisas triviais na vida de Anne antes da mudança para o esconderijo. No Anexo, Anne relata a sensação de viver confinada; o medo de serem descobertos; a preocupação com amigos que foram deixados para trás; notícias da guerra; e também os conflitos entre os moradores do Anexo. Anne tinha uma relação muito difícil com sua mãe e sua irmã. Além disso, a falta de privacidade e a precariedade da vida no esconderijo causavam diversas brigas entre os Frank, os van Paels e Fritz Pfeffer.
Mas o mais importante que precisamos nos lembrar sobre O Diário de Anne Frank é que são os pensamentos íntimos de uma garota que além de enfrentar uma situação extrema, passava pela adolescência e tinha problemas como todas as outras pessoas. Anne se sentia sozinha e tinha muita necessidade de aprovação por parte das pessoas que a cercavam. Seu diário foi seu grande amigo durante os dois anos em que ela viveu no Anexo. E a princípio, era apenas uma forma de expressar seus pensamentos. Só em 1944 ela soube que o governo de seu país pretendia recolher relatos do que as pessoas haviam passado com a ocupação alemã. Nessa época, Anne sonhava em ser escritora e publicar um livro baseado em seu diário. Foi então que ela começou a editar o texto, usando pseudônimos para as pessoas que viveram com ela e sua família no Anexo.
Este é um livro essencialmente pessoal. Nele, não apenas descobrimos a história dessa garota que comoveu o mundo, mas também testemunhamos seu amadurecimento, seus sonhos, esperanças e desilusões.

Imagem compartilhada no meu Instagram durante a leitura.
Visite @lethyd ou @loucuraporleituras e acompanhe!
"Vejo nós, no Anexo, como se fôssemos um retalho de céu azul
rodeado por nuvens negras e ameaçadoras.
O trecho perfeitamente redondo onde estamos ainda é seguro,
e o círculo entre nós e o perigo que se aproxima está cada vez se apertando mais."
Trecho das anotações de 8 de novembro de 1943. Páginas 155-156

A primeira coisa que preciso informar na parte crítica dessa resenha é que esta é considerada uma edição definitiva para O Diário de Anne Frank. A primeira publicação do diário, de 1947, foi editada por Otto H. Frank; ele suprimiu diversos trechos da escrita original da filha, para que o livro se adequasse às exigências do editor, e também para ocultar passagens sobre a sexualidade de Anne e opiniões que Otto considerou desrespeitosas em relação aos moradores do Anexo. Esta edição contém as passagens suprimidas por Otto, muitas delas inéditas, além de um prefácio com todas as informações a respeito das edições anteriores do Diário e diversas fotos dos Frank e de seus amigos. No posfácio nós sabemos o que aconteceu com cada um dos moradores de Anexo e das pessoas que os ajudaram depois que o esconderijo foi descoberto.
Sendo um diário, o livro está escrito na primeira pessoa. Anne apelidou seu caderno de Kitty, e se dirige a ele como a uma amiga, como se escrevesse cartas. Cada "entrada" para um novo dia é marcada pela data exata em que Anne escreveu, incluindo o dia da semana, o que nos orienta com a passagem do tempo no Anexo, a mudança de estações e o avanço da guerra. Anne não escrevia todos os dias, mas sim quando considerava que tinha algo interessante a dizer, ou quando tinha tempo para relatar os últimos acontecimentos. Ocasionalmente, ela lia passagens antigas e escrevia comentários sobre elas. Essa edição deixa os comentários e as "inscrições originais" bem marcados,
É difícil dizer qual o ritmo de leitura oferecido pelo livro. Isso que porque existe uma grande variação de assuntos abordados por Anne em seu diário. Nas primeiras páginas, nós conhecemos seus colegas na escola, seu dia-a-dia, e a vida que ela levava; após a mudança para o Anexo, se segue uma longa descrição das instalações do esconderijo. Anne fala das visitas dos amigos ao esconderijo, das privações que o grupo enfrenta, da grande quantidade de tiroteios e bombardeios que são ouvidos diariamente; da angústia de não poder sair de casa, não poder abrir as janelas, e ter de ficar em silêncio durante longos períodos de tempo. Em suas reflexões, o tom de Anne varia assim como ela afirma se sentir ao citar o verso de Goethe: "No topo do mundo, ou nas profundezas do desespero". Eu consegui ler em oito dias, mas acredito que pela carga emocional, outras pessoas podem demorar um pouco mais.
Nessa segunda leitura, eu consegui me identificar muito mais com várias das reflexões de Anne, com seus pensamentos e sentimentos. E como eu não me lembrava de quase nada, eu me surpreendi com várias passagens e me emocionei bastante ao chegar ao final, especialmente porque nas últimas anotações de seu diário, Anne estava bastante otimista com a chegada dos ingleses na costa da França, e tinha grandes esperanças de que a guerra (e o sofrimento de sua família e de milhões de outras pessoas) tivesse fim. Infelizmente, todas as esperanças dela foram em vão porque em agosto de 1944 os moradores do Anexo e seus amigos foram encontrados e presos.
A releitura atendeu ao meu propósito, que era de compreender melhor esse relato e ter uma visão mais madura sobre ele. Além disso, eu finalmente cheguei a uma resposta sobre uma grande questão íntima que eu tinha em relação e este e outros diários de pessoas que viveram o Holocausto. Eu li outros dois diários de meninas judias que viveram situações diferentes da de Anne; por acreditar que essas duas meninas tinham "sofrido mais", eu tinha certo desprezo pelo Diário de Anne Frank. Eu tive a oportunidade de repensar completamente essa visão e chegar à conclusão de que nenhum relato dessa época deveria "invalidar" outro. Todos são histórias que devem ser compartilhadas para que o mundo nunca esqueça o que foi o Holocausto, independente daquilo que cada pessoa viveu. Minha visão anterior era com certeza muito imatura e nem um pouco empática, e eu estou orgulhosa por ter conseguido mudá-la.
Recomendo O Diário de Anne Frank para quem quiser conhecer a história dela e saber um pouco mais sobre como foi a Segura Guerra para os judeus. Mas digo que esse livro não deveria ser lido por pessoas muito jovens; eu tinha quinze anos quando li pela primeira vez e acredito que essa segunda leitura foi muito mais produtiva do que a primeira.

Avaliação geral:

Onde comprar:

Aspectos positivos: a edição apresenta trechos que haviam sido suprimidos em edições anteriores, além de fotografias dos moradores de Anexo e das pessoas que os auxiliaram; contém um prefácio com explicações acerca das edições feitas pela própria Anne quando viu a possibilidade de seu diário seu publicado e um posfácio com informações sobre o que aconteceu a cada uma das pessoas dessa história após a descoberta do Anexo;
Não há aspecto negativo a ser destacado.

Por: Lethycia Dias

Esse foi o terceiro livro que li para o projeto Bingo Literário, na categoria "Releitura".


10 Comentários

  1. É uma leitura que eu gostaria de te ter. Tenho um amigo que é completamente apaixonado por ele. E ainda diz ser o seu livro favorito. Ainda não li. E como você disse, sou uma dessas pessoas que tem um conhecimento vago sobre o livro. Mas pretendo ler um dia. ♥ Adorei a resenha, muito bem escrita. Parabéns.

    ACESSO PERMITIDO. ♥
    www.acessopermitido.com

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    1. Olá, Elcimar!
      Acho um livro bem triste para ser o favorito de alguém, apesar do significado que ele tem. Então imagino que o seu amigo deve ter ficado muito tocado com a história. Espero que você tenha a oportunidade de ler um dia! Nunca é tarde para ler livros como esse a aprender coisas novas!
      Muito obrigada pelos elogios e pelo comentário, fico feliz que tenha gostado da resenha

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  2. Oi, Leth. Que resenha adorável!
    É muito bom essa experiência de ressignificação de uma releitura, não é?
    Acredita que eu ainda não li esse livro?
    Bjs

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    1. Oi, Hel!
      Com certeza, acho que isso é o melhor de reler um livro. Ver que amadurecemos e conseguimos enxergar coisas que antes não eram claras pra gente.
      Sério que não leu? Pois fica aí a dica! Espero que goste!

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  3. Olá! Excelente resenha!
    É bom reler livros de vez em quando, né? Eu tenho vergonha de ainda n ter lido Anne Frank, rsrs. Não sabia da diferença nas edições...
    Bjs
    http://acolecionadoradehistorias.blogspot.com

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    1. Olá, Carol!
      Reler livros é maravilhoso, sempre temos a oportunidade de aprender coisas diferentes, ou mesmo de relembrar uma história que a gente gostou muito. Eu adoro reler, e recomendo!
      Não tenha vergonha, todo mundo tem seu tempo. Aposto que vai ler quando sentir que está preparada.
      Quanto às edições diferentes, acredito que as censuradas sejam mais antigas e já difíceis de encontrar. A que eu indiquei no link de compra é a mesma versão que eu li, porém com uma capa nova (procurei muito antes de considerar a resenha pronta!)
      Obrigada pelo elogio e pelo comentário!

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  4. Eu tenho esta mesma edição. Confesso que esperava uma Anne Frank ingênua e quase santa, pois a imaginava uma mártir, mas me surpreendi com a humanidade e o amadurecimento da garota fútil do início do livro para a adolescente sensível que se tornou. Dá uma agonia aquela passagem que eles não podem tossir, e as que precisam fritar as batatas podres para comer... Mas tiveram a sorte de terem aquela amiga, que foi um anjo. Eu amo esse livro e ainda bem que demorei para ler, minha primeira leitura foi mais ou menos com a idade que tens hoje então já tinha uma certa maturidade. Tem certos livros que a gente deve agradecer por demorar a ler. Amei sua resenha, como sempre. E aproveite a praia!!

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    Respostas
    1. Acho que essa edição até já deixou de ser vendida em livrarias, encontrei uma parecida, também apontada como "edição definitiva", porém com capa diferente. Mas confesso que sou doidinha pela edição nova que parece um diário de verdade, ela é linda!
      Muito interessante isso que você disse! Acho que a gente meio que espera por essa imagem, né? Também é bom desconstruir isso com a leitura. A gente vê que ela era só uma adolescente como qualquer outra, que infelizmente viveu uma coisa terrível. Mas a sensibilidade dela é de encantar. Fiquei mesmo muito triste quando ia chegando no final. Ela estava muito esperançosa, falava até de voltar pra escola...
      Realmente, tem livros que tem um tempo certo pra gente ler. Imagino o desastre que teria sido ler A Cor Púrpura com quinze anos, quando eu ainda achava que "tem mulher que gosta de apanhar".
      Muito obrigada por esse comentário tão carinho, amiga. E eu aproveitei bastante! :)

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  5. Eu li O Diário de Anne Frank há quase 14 anos e, assim como você, não foi algo que me agradou de cara... Na época eu era MUITO nova e estava na vibe de ler livros de diário, mas definitivamente não estava pronta pra isso, pra algo real.
    Tenho muita-muita-muita vontade de reler porque sei que hoje eu vou entender tudo com muito mais carinho, empatia e paciência... É uma droga saber que isso tudo aconteceu com ela, mas necessário pra impedir o fato de que continua acontecendo com tantas pessoas, mesmo que de outra forma!

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    Respostas
    1. Sim, é verdade Luly! Livros assim são importantes para que a gente entenda melhor o mundo e as pessoas. Seu comentário me fez lembrar do filme "Escritores da Liberdade", quando a professora faz alunos de periferia (muitos deles envolvidos com gangues, com problemas familiares, desinteressados pelos estudos) leres O Diário de Anne Frank, e eles se identificam com a Anne e passam a refletir sobre aquilo que vivem. É um filme lindo!
      Espero que algum dia você possa reler esse livro. Sempre que eu pensava sobre a minha opinião a respeito dele, me sentia meio culpada por achar "ruim", e pensava que tinha que ler de novo. Eu estava certa!
      Tomara que você consiga reler em breve!

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