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13 Reasons Why
Fonte: Reprodução | 13 Reasons Why

Atenção: esse post não tem a intenção de ser uma resenha sobre a série da Netflix, mas sim uma reflexão crítica sobre a série e o livro.

Há duas semanas estreou na Netflix a série 13 Reasons Why, ou Os 13 Porquês, inspirada no livro homônimo publicado por Jay Asher em 2007. A série era muito esperada por fãs do livro e teve boa recepção diante do público, tanto entre pessoas que já leram quanto entre pessoas que ainda não conheciam o livro. Nos dias seguintes ao lançamento, a hashtag #13ReasonsWhy esteve em primeiro lugar nos trends topics do Twitter, e devido à grande repercussão da série, pessoas que não têm o costume de assistir a filmes e séries sobre e para adolescentes decidiram acompanhar a nova produção da Netflix.
Eu faço parte do público que já havia lido o livro e que esperava por uma adaptação da história de Hannah Baker. Li o livro em 2011, e se na época eu já acreditava que Os 13 Porquês precisava ser lido por pessoas de todas as idades devido aos assuntos de que tratava, hoje venho reforçar essa ideia. Principalmente porque me dei conta de que 13 Reasons Why não é só sobre bullyingdepressão e suicídio. Essa é a apenas a ponta do iceberg. Num nível mais profundo, o livro é também sobre assédio sexual, estupro, slut shaming, misoginia, machismo. A série deixa isso explícito, e esse é um dos grandes méritos da adaptação, que acrescentou conteúdo à história na intenção de torná-la mais atual, atraente e representativa.

As discussões trazidas por Os 13 Porquês



Fonte: Reprodução | 13 Reasons Why

Para quem ainda não sabe o conteúdo geral do livro e da série, farei um breve resumo:

Clay Jensen recebe em casa um pacote com fitas cassete gravadas por Hannah Baker, uma garota de sua escola que cometeu suicídio há algumas semanas. Nas fitas, Hannah afirma que vai explicar os 13 motivos que a levaram a tirar a própria vida, e anuncia: "Se você está ouvindo isso, então você é um dos motivos". A regra é ouvir todas as fitas até o fim e enviá-las para a próxima pessoa da lista. Caso contrário, alguém que tem cópias das fitas fará com que todos saibam a verdade.

A série acrescenta acontecimentos que não fazem parte da história original. O conteúdo essencial das fitas permanece o mesmo, mas uma das principais diferenças, por exemplo, é o fato de que no livro Clay ouve todas as fitas de uma vez só, na ansiedade e descobrir o que teria feito para prejudicar Hannah. Enquanto no livro temos contato apenas com os sentimentos dele ao descobrir o quanto seus colegas da escola foram cruéis com Hannah, na série nós vemos Clay entrar em ação, revoltado com tudo o que descobria; da mesma forma, os colegas que tinham ouvido as fitas antes dele vão tentar impedi-lo, pois não querem que outras pessoas saibam o que eles fizeram. Outra coisa acrescentada foi a luta dos pais de Hannah por esclarecimentos, por meio de um processo judicial em que acusam a escola de ter negligenciado Hannah enquanto ela sofria bullying.
Como eu afirmei no início desse texto, considero esses acréscimos um aspecto positivo. A série trouxe para o primeiro plano discussões que não ficam muito claras no livro.

Fonte: Reprodução.

É impossível continuar esse texto sem falar da minha experiência pessoal com o livro e com a série. Quando li, em 2011, eu tinha 14 anos, e os temas que mais me chamaram a atenção foram o bullying e o suicídio. Eu tomei uma decisão pessoal de tentar ser mais sensível com pessoas ao meu redor, a fim de evitar comportamentos que pudessem magoar alguém. Foi isso que o livro me mostrou na época: que nós nunca sabemos o que a outra pessoa está passando, nós não conhecemos os sentimentos da outra pessoa. Nenhuma daquelas pessoas tinha ideia de que estava fazendo mal para Hannah. E eu me perguntei, muitas vezes, se já tinha magoado alguém daquela forma.
Eu ainda não sabia, mas estava aprendendo sobre empatia. Muito antes de conhecer essa palavra, eu já estava entendendo a necessidade de nos colocarmos no lugar do outro.

Fonte: Reprodução.

Fonte: Reprodução

Não é só com a Hannah


Mas na época eu não era a mesma Lethycia de hoje em dia. Me revoltou saber que um boato maldoso espalhado por garoto havia gerado uma bola de neve tão grande e transformado a experiência escolar de uma garota num verdadeiro inferno. Mas então eu achava que aquilo só poderia ter acontecido no livro, que garotas de verdade não passavam pelo que Hannah passou, que o fato de um garoto ter inventado uma história sobre uma garota não faria com que todos passassem a tratá-la mal. Como eu estava enganada! Eu descobriria, com o passar do tempo, que algumas agressões sofridas por Hannah fazem parte do dia-a-dia de muitas outras garotas da vida real. Hannah era real.

No mesmo ano em que li Os 13 Porquês, eu era uma aluna nova na turma. E agora, quando penso naquela época, me lembro que ao manifestar interesse em conhecer garotos, fui aconselhada por garotas da minha turma a não me aproximar de garotos do colégio, porque segundo elas, "Os meninos daqui não prestam. Vão sair por aí falando mal de você pra todo mundo." Ora, não foi isso que Justin fez com Hannah? Hoje, me pergunto o que aquela garota deve ter passado para me dar aquele aviso.
No ano seguinte, quando eu estava no primeiro ano do Ensino Médio e já estudava em outro colégio, aconteceu um episódio que até hoje considero como um marco na minha percepção sobre violência de gênero. No meu colégio, nem todos os alunos haviam recebido todos os livros didáticos, e por isso, era normal termos que buscar alguns exemplares na biblioteca durante as aulas. Num certo dia, o professor de História chamou uma menina, que vou chamar de P, para ajudá-lo a buscar alguns livros para a turma. Esse professor, que era muito brincalhão, chegou à sala fazendo insinuações sobre ter beijado P. Ela, por sua vez, estava visivelmente incomodada, desconfortável, irritada. É claro que isso se tornou imediatamente o principal assunto na sala, que a aula foi totalmente ignorada, e que nos dias seguintes, muitas pessoas perguntaram a P, e ela dizia que ele havia tentado agarrá-la. Já o professor, ao ser confrontado, afirmava que o que disse naquele dia era só uma brincadeira, que nada havia acontecido, e que se P dizia dizia aquilo, ela estava inventando tudo só "para chamar atenção".
Eu fiquei sem saber o que achar daquilo tudo. Por um lado, fiquei assustada. Por outro, parecia mesmo que tudo não passava de uma brincadeira. Mas P deixou de falar com ele, de rir das brincadeiras que ele fazia com outras garotas, de responder perguntas sobre o conteúdo das aulas. Só muito tempo depois é que eu fui perceber que se tratava de uma situação de assédio e abuso. E que, como é muito normal em casos de violência de gênero, ninguém acreditou na vítima.

Ressignificação


Quando cheguei à Universidade, em 2015, eu me deparei com o feminismo. Uma série de termos foram incorporados ao meu vocabulário: patriarcado, assédio sexual, feminicídio, gaslighting, slut shaming. Foi nessa época que comecei a perceber que aquilo que tinha acontecido no primeiro ano do Ensino Médio havia sido um assédio sexual, e que eu, como muitas outras pessoas, havia sido injusta com P.
Mas eu ainda não tinha pensado em 13 Reasons Why dessa forma.
Eu ainda defendia (e vou continuar defendendo) a ideia de que Os 13 Porquês traz uma lição importantíssima sobre como sermos mais sensíveis e nos colocarmos no lugar do outro, e que traz uma visão sensível sobre o suicídio e como evitá-lo. Inclusive já falei sobre isso em um post anterior, a respeito da campanha do Setembro Amarelo.
Mas quando eu soube que a série estava prestes a ser lançada na Netflix, me peguei pensando no livro de acordo com uma nova perspectiva. Me peguei pensando em toda a história de Hannah, e que tudo que ela havia sofrido não se tratava apenas de bullying, mas de uma profunda misoginia. Bullying seria rir e fazer piadas de um colega que gagueja ao apresentar trabalhos; seria deliberadamente excluir um colega das atividades em grupo; seria, como já fizeram comigo, inventar um apelido baseado nas características físicas de uma pessoa e atormentá-la durante semanas falando sem parar sobre isso. Não que essas agressões tenham menor importância ou sejam menos cruéis, mas as agressões cometidas contra Hannah eram diferentes porque tinham base na violência de gênero.
O que Hannah viveu durante o Ensino Médio foi o slut shaming, que significa, literalmente, "chamar de vadia". É uma espécie de agressão caracterizada pelo comportamento de julgar uma mulher como inferior ou indigna de respeito com base em sua vida sexual. É como se, por exercer a própria sexualidade, uma mulher deixasse de ser considerada uma pessoa digna de respeito. A mesma coisa não acontece com homens, que são mais respeitados por isso.
O slut shaming abriu portas para o assédio sexual, que é um comportamento extremamente naturalizado. Aquele "E aí gostosa" que a gente ouve todo dia na rua. Aquele jeito de homens olharem mulheres como se fossem pedaços de carne. Aquele toque indesejado em partes dos nossos corpos, como se fôssemos propriedade pública. No caso de Hannah, os boatos sobre ela abriram espaço para que os garotos da escola acreditassem que ela era "fácil", e que por ser "fácil", estava "disponível para todos". Mas na vida real, não é preciso que exista um boato sobre nossas vidas sexuais para que homens façam isso conosco.
Quanto ao estupro, não vou entrar em detalhes. Só vou dizer que, se antes eu não tinha certeza de que isso tinha acontecido no livro, a série deixa isso bem claro até mesmo para quem não tem contato com conceitos como consentimento. A série deixa explícito que estupro nem sempre acontece com um cara mau num beco escuro, que a vítima nem sempre pode gritar e correr,  e que se a vítima não faz isso, não é culpa dela.
Então, para deixar bem claro...

Fonte: Reprodução.

Fico feliz que a adaptação do livro tenha me trazido a oportunidade de enxergar a história de Hannah Baker com outros olhos, e que a série tenha deixado todas essas questões tão claras. Para quem ainda não viu a série, recomendo muito, com a ressalva de que pode despertar gatilhos emocionais. Quanto ao livro, recomendo para fins de aprofundamento no relato de Hannah nas fitas.
Espero que algum dia não precisemos mais da ajuda de produções culturais para podermos compreender a necessidade de termos mais empatia e de respeitarmos mulheres.

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6 Comentários

  1. Que post maravilhoso! Eu sempre aprendo alguma coisa quando venho aqui. Já queria ler Os 13 porquês por indicação sua, mas depois que a série foi lançada resolvi adiantar a leitura. E terminei no mesmo dia. Hoje a Lívia enxergou questões de gênero. Nem vi tanto bullying. Se tivesse lido na minha oitava série teria visto como bullying. O meu colégio era famoso por terem "putas". Na época eu achava isso e não queria ser associada a essa imagem. Hoje eu vejo que cometi uma injustiça tremenda pois minhas colegas tinham o direito de se descobrir! Os garotos que não precisavam fazer isso com elas. Nessa época eu era tão aleatória na escola que mal sabia quem eram os populares. Mas sabia de boatos que corriam. Tinha um professor que graças a Deus nunca me deu aula que era famoso por assediar alunas e usar sexo como moeda de troca para notas. Eu juro que morria de medo de encontrar esse nojento nos corredores, mas também nunca pude fazer nada visto que não o conhecia, muito menos as meninas que passaram por isso e não podia desmentir o boato. Mas se isso for verdade imagina quantas não sofreram... e quantas outras não sofriam por serem chamadas de vadias, algumas até mesmo da minha classe... o pior de tudo é que essa história é real. Talvez nem todas se matem, mas o contexto é real. E é isso o que me deixa mais triste.

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    1. Ahhh, que felicidade ler um comentário como esse! Eu tento trazer assuntos atuais que considero importante para se discutir, e como optei por ter um blog exclusivamente literário, sempre faço o link com a literatura.
      A série me deu mais vontade ainda de reler o livro! Sei que vou enxergar com outros olhos e talvez ter sentimentos bem mais intensos. Na época que li, eu enxerguei muito o bullying porque era o que eu estava passando no momento. Lembro que uma menina bem popular na turma fez festa de 15 anos e convidou todo mundo, inclusive pessoas que não eram amigas dela, menos eu.
      Quanto ao slut shaming, é impressionante como isso acontece nos colégios! Parece que a vida escolar é o lugar onde nós mais aprendemos e internalizamos esses julgamentos contra mulheres. No colégio onde eu fiz o Ensino Médio, meninas eram proibidas de usar short e calças legging, não importa o calor que fizesse, porque era "chamativo", "indecente". Engraçado que os meninos podiam ir de bermuda e até com calções de jogar futebol. Em algum momento da vida escolar eu aprendi o termo "PF", ou "pega fácil", que era como os meninos chamavam meninas com má-reputação, e ninguém queria ser chamada assim.
      Sobre esse professor que você ta falando, que horror. Pior que nem tinha essa possibilidade de não conhecer um professor no colégio onde eu fiz o Ensino Médio, porque era um colégio muito pequeno, os professores davam aula pra praticamente todas as turmas, e a maioria dos alunos conhecia muita gente das outras turmas, alguns eram parentes ou se conheciam desde o prézinho. O fato de colégio ser tão pequeno causou até uma coisa muito chata no meu primeiro ano, quando duas meninas da minha turma, que eram amigas e tinham o costume de andar de mãos dadas, foram rotuladas como "lésbicas".
      Enfim. A vida escolar é muito cruel com nós mulheres, e eu gostaria muito que nós meninas aprendêssemos desde cedo a nos empoderarmos e nos defendermos desse tipo de agressão.

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  2. Mana! Finalmente você me entende. Quase ninguém compreendeu quando criei um post falando sobre a série, falado que não era Bullying, era assédio! Que bom que você me compreende! Amém! parabéns pelo texto!

    Beijocas,
    www.dossiedeverao.com

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    1. Olá!
      Se fosse alguns anos atrás, eu não teria entendido mesmo. Felizmente, a gente sempre tem a oportunidade de mudar nosso jeito de enxergar as coisas. É muito importante falarmos disso, e uma das coisas que mais me agradaram na série foi o fato de ter deixado mais explícito.
      Muito obrigada pela visita e pelo comentário!

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  3. Adorei seu artigo! Também já havia lido e resenhado antes, gostado muito, mas, ver com outros olhos também mudou minhas perspectiva.

    Parabéns!

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    1. Muito obrigada, Cecy!
      Acredito que sempre é necessário e proveitoso revermos nossos pensamentos sobre determinadas coisas.

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