"É após a morte que Brás Cubas decide narrar
suas memórias. Nesta condição, nada pode suavizar seu ponto de vista irônico e
mordaz sobre uma sociedade em que as instituições se baseiam na hipocrisia. O
casamento, o adultério, os comportamentos individuais e sociais não escapam à
sua visão aguda e implacável, nesta obra fundamental de Machado de Assis."
Autor: Machado de Assis
Gênero: Romance
Número de páginas: 125
Local de data de publicação: Editorial Lord Cochrane S. A., Chile, 1998.
Editora: América do Sul LDA.
Irônico, engraçado, devastador
"Ao verme que primeiro roeu
as frias carnes do meu cadáver
dedico como saudosa lembrança
estas memórias póstumas"
Fico tentando imaginar quanto espanto tal dedicatória deve ter causado no fim do século XXI, seja quando publicado em forma de folhetim, na Revista Brasileira, em 1880, seja quando publicado realmente em forma de livro, no ano seguinte. O fato é que Memórias Póstumas de Brás Cubas é considerado uma obra inovadora, que introduziu o realismo na literatura brasileira, e alguns críticos até afirmam que precedeu algumas caraterísticas do realismo fantástico, chegando a denominá-lo "a primeira narrativa fantástica do Brasil". E tudo isso porque Brás Cubas, o narrador-personagem do livro, é nada mais nada menos que um homem morto. Ele nos anuncia, desde o princípio, que escreve diretamente do além, e mais: começa a história não pelo seu nascimento, mas por sua morte. Essas são as inovações que fazem deste livro dos mais conhecidos de Machado de Assis, obra indicada para vestibulares e clássico da literatura brasileira.
Não há muito o que falar sobre o enredo sem dar spoiler's, mas como o próprio título já diz, trata-se de um livro de memórias. Aqui, o personagem Brás Cubas nos conta de sua morte, voltando aos seus últimos tempos de vida, até que no capítulo 9 (Transição) anuncia que vai nos falar sobre seu nascimento. Assim, a narrativa retoma o tempo cronológico. Nós acompanhamos o nascimento e os primeiros anos de infância de Brás Cubas, e até uma explicação sobre a origem de seu nome. Logo, a narrativa pula para sua juventude, estudos, relacionamentos amorosos, e se prolonga por quase todo o livro em sua vida adulta. Brás nasce em 1805, época em que o Brasil ainda era colônia de Portugal, e morre em 1869, durante o período do Segundo Reinado. Embora a narração não dê muitas explicações sobre a profissão de seu pai, nós logo percebemos que a família Cubas pertence ao pequeno grupo de pessoas privilegiadas socialmente na época: um de seus tios foi oficial da infantaria, enquanto o outro é cônego; a família possui certa quantidade de terras (uma chácara), e escravos. Vale lembrar que a escravidão só foi abolida no Brasil oito anos depois da primeira publicação dessa história.
"[...] o relógio é definitivo e perpétuo;
o derradeiro homem, ao despedir-se do sol frio e gasto,
há de ter um relógio na algibeira, para saber a hora exata em que morre."
Narrado em primeira pessoa pelo próprio Brás Cubas, o livro é dividido em capítulos de tamanho variado, mas em geral curtos. As vezes, tão curtos que uma só página chega a conter dois capítulos inteiros e o início de um terceiro. Em outras vezes, Machado, em seu estilo um tanto incomum, inicia um capítulo sem texto algum, que nós faz avançar para o próximo. Outras vezes, nos manda pular trechos, como no capítulo 7 (Delírio): "Que me conste, ainda ninguém relatou o seu próprio delírio; faça-o eu, e a ciência mo agradecerá. Se o leitor não é dado à contemplação destes fenômenos mentais, pode saltar o capítulo; vá direto à narração.". Tudo isso é característico da escrita de Machado, que você talvez já conheça se tiver lido Dom Casmurro.
A linguagem é formal e rebuscada, cheia de palavras e expressões que já se tornaram obsoletas, mas isso é normal em um livro escrito há mais de cem anos. Um leitor acostumado com literatura moderna, sobretudo literatura voltada para jovens, pode se incomodar ou ficar confuso com isso, mas creio que procurar por uma adaptação resolva o problema; insistir na leitura e usar um dicionário também é uma boa opção.
O estilo é realista, devido ao uso de ironia e pessimismo para criticar a sociedade. Um bom exemplo disso é quando Brás nos conta sobre seus estudos na Universidade de Coimbra, em Portugal, pagos por seu pai e realizados por insistência do progenitor, que ele não levou muito a sério. Na época, era comum que as famílias mais ricas enviassem os filhos (apenas os homens, é claro) para estudar na Europa. Machado de Assis, nascido em família pobre, nunca frequentou universidade. Outra grande crítica é contra a necessidade de manter uma boa reputação perante a alta sociedade; em vários momentos, percebemos o quanto isso é importante para a personagem Virgília, e Brás Cubas se queixa abertamente disso.
A leitura foi demorada, porém muito divertida. Eu já tinha lido Memórias Póstumas de Brás Cubas quando tinha quinze anos, e essa na verdade foi uma releitura. Foi importante para que eu mudasse um pouco minha opinião sobre os romances de Machado, pois apesar de adorar os contos dele, eu tinha certa resistência aos romances (talvez pelo fato de ter lido Helena, uma obra não muito madura, ou por ser também muito nova quando li Dom Casmurro e não ter compreendido bem).
Recomendo a leitura para vestibulandos, para quem pretende conhecer obras de Machado de Assis ou do realismo brasileiro, para quem gosta de clássicos, e para quem pretende conhecer melhor a literatura brasileira do século XIX.
Aspectos positivos: caráter inovador; capítulos curtos incentivam a continuar lendo; presença de críticas sociais; uso de ironia.
Aspectos negativos: a linguagem rebuscada pode confundir o leitor.