Confira!

"Uma das maiores escritoras brasileiras, Clarice Lispector, enquanto trabalhava sua ficção, manteve intensa atuação na imprensa, para a qual escreveu cerca de cinco mil textos, entre fragmentos de ficção, crônicas e colunas femininas, para diversos jornais e revistas, e realizou mais de 100 entrevistas, a primeira delas , em 1940, com o poeta Tasso da Silveira. Organizado pela pesquisadora Maria Aparecida Nunes, Clarice na cabeceira - Jornalismo é uma amostra dessa atividade. Com texto inéditos, a coletânea traça um panorama do jornalismo brasileiro, a partir da produção de Clarice Lispector para a imprensa."

Autora: Clarice Lispector
Gênero: Jornalismo
Número de páginas: 240
Local e data de publicação: Rio de Janeiro, 2012
Organização: Aparecida Maria Nunes
Editora: Rocco
Onde comprar: Amazon | Casas Bahia | Ponto Frio | Saraiva

Uma Clarice que não conhecíamos


Às vezes, prestar atenção nas recomendações das lojas virtuais com base no que você tem visualizado ou comprado pode ser muito bom. Porque foi assim que descobri esse livro. Depois de uma aula na faculdade sobre a crônica jornalística, pesquisei por livros de crônicas na Amazon, e acabei encontrando Clarice na cabeceira. Comprei sem pensar duas vezes, e embora eu tenha muitas restrições à compra impulsiva, fico feliz por tê-lo comprado.
Este livro é um fruto da pesquisa da Doutora em Literatura Brasileira pela Universidade de São Paulo, Aparecida Maria Nunes, na época em que realizava seu mestrado. Ela havia se dado conta de que pouco se sabe sobre a carreira de Clarice Lispector no Jornalismo (muitos de nós sequer sabem que ela foi jornalista), e por isso persistiu na investigação do tema.
Clarice na cabeceira é uma compilação de textos publicados por Clarice Lispector em jornais e revistas brasileiros ao longo de sua vida, desde quando tinha apenas 20 anos, em 1940, até pouco antes de sua morte, em 1977. A introdução apresenta uma análise profunda dessa parte não conhecida da obra de Clarice, a partir das contribuições e comentários de outros escritores e jornalistas que a conheceram bem.
O livro contém textos literários ou com característica de ensaio (como é o caso de Observações sobre o fundamento do direito de pensar), artigos de jornal, crônicas, entrevistas e textos variados publicados em colunas voltadas para o público feminino (alguns desses vieram da famosa coluna Correio Feminino, na qual ela assinou com o pseudônimo de Helen Palmer).
É válido lembrar que o livro funciona como uma coletânea, e que portanto, é uma seleção de alguns entre muitos dos escritos de Clarice na imprensa brasileira. Segundo a organizadora, "Clarice escreveu cerca de 450 colunas na imprensa feminina, o que equivale a aproximadamente 5 mil textos [...]. Como entrevistadora, foram cerca de 100 textos. E, somente para o Jornal do Brasil, publicou mais de 300 crônicas.". O que significa que, por mais que seus admiradores mais fervorosos queiram, não seria possível reunir tudo em um único volume. Dessa forma, Clarice na cabeceira: Jornalismo se apresenta como uma deliciosa amostra do trabalho de Clarice na imprensa, ainda pouco conhecido por seus leitores de ficção.

Imagem compartilhada no meu Instagram durante a leitura.
Visite @lethyd ou @loucuraporleituras e acompanhe!
"Escritor é uma pessoa que se cansa muito, e que termina com um pouco de náusea de si,
já que o contato íntimo consigo próprio é por força prolongado demais."
Traduzir procurando não trair - Página 141

O livro está dividido em quatro partes: Os primeiros textos na imprensa, As páginas femininas, As crônicas e As entrevistas, nas quais estão divididos os textos selecionados pela organizadora. Cada uma dessas partes é complementada por um texto de apoio contextualizando a importância do tipo de texto específico, em que época Clarice os escreveu e o que representam na sua produção. Os primeiros textos na imprensa reúne textos variados da juventude de Clarice, quando ela procurava na imprensa um suporte para sua produção literária. Essa fase é anterior à publicação de Perto do coração selvagem, de 1943. Inclui desde contos até uma espécie de ensaio voltado à área do Direito, onde Clarice questiona as punições penais instituídas na sociedade. As páginas femininas diz respeito às colunas voltadas exclusivamente para mulheres, não apenas em Correio Feminino, mas também em outras colunas, com outros pseudônimos. As crônicas é a maior delas, e compreende textos publicados na coluna Children's Corner, da revista Senhor, e também na coluna que Clarice manteve no Jornal do Brasil. Já As entrevistas inclui entrevistas completas com diversas personalidades, e publicadas em diferentes periódicos, já nos últimos anos de vida de Clarice.
Cada uma das partes deste livro nos ajuda a compreender melhor essa Clarice Lispector que não conhecíamos. Os primeiros contos, como Triunfo, Eu e Jimmy e Cartas a Hermengardo (as 3 partes) já apresentam o estilo que veríamos depois em parte consagrada da sua obra. A forma de organização das frases, a narrativa que se desenrola mais por meio dos pensamentos e impressões dos personagens que por suas ações. Já o ensaio Observações sobre o fundamento do direito de punir nos apresenta a uma Clarice diferente, séria, objetiva, política, quase inimaginável. Os textos em que aconselha suas leitoras carregam um pouco de bom-humor, mas não são necessariamente transgressores ou empoderadores - reforçam o que se esperava de uma mulher na época.
O melhor fica por conta das crônicas e entrevistas. As crônicas giram em torno dos mais diversos assuntos e carregam todas o tom reflexivo e intimista da obra de ficção de Clarice. Uma delas, De um caderno de notas, parece consistir simplesmente num compilado de anotações aleatórias, que juntas, formam sentido. Amor imorredouro conta uma inusitada viagem de táxi em que o motorista lhe fala de seu amor perdido. E a melhor de todas, na minha opinião, é Mineirinho, na qual Clarice discorre sobre o sentimento geral da população do Rio de Janeiro a respeito da morte de Mineirinho, um conhecido criminoso da época que em 1962 foi morto em tiroteio com a polícia. Nesta crônica, Clarice ainda retoma parte do discurso sobre o Direito de punir e protesta contra a justiça feita com as próprias mãos: "[...] na hora em que o justiceiro mata, ele não está mais nos protegendo nem querendo eliminar um criminoso, ele está cometendo o seu crime particular, um longamente guardado." (Pág. 115).
As entrevistas são uma das partes mais deliciosas de se ler. Nelas, Clarice não se limitava a apenas apresentar o "entrevistado" e transcrever as perguntas e respostas, mas fazia questão de se colocar no texto, falando de suas impressões e pensamentos sobre o entrevistado e suas respostas, e nos levando a imaginar como se deu realmente cada uma das entrevistas - para além dos cortes e edições jornalísticos. Considero ressaltar que é um material valiosíssimo: Clarice entrevistou pessoas como Nelson Rodrigues, Tom Jobim, Sara Kubitscheck, a cantora Maísa e até o antropólogo Darcy Ribeiro. A forma de Clarice se colocar dentro de suas entrevistas torna os textos deliciosos e extremamente ricos.
Clarice na cabeceira nos permite conhecer outras facetas de Clarice Lispector, que não nos havia m sido apresentadas ainda. Recomendo muito a leitura tanto para quem já é admirador de Clarice quanto para quem ainda está se aventurando com seus escritos.

Avaliação geral:

Onde comprar:

Aspectos positivos: apresenta uma rica coletânea de textos diversos publicados por Clarice Lispector na imprensa brasileira; contém seleção de textos de diversos jornais e revistas e diferentes períodos da vida de Clarice; contém textos de apoio que ajudam o leitor compreender melhor a produção de Clarice e os momentos pelos quais passa a imprensa brasileira.
Não há aspecto negativo a ser ressaltado.

2 Comentários

  1. Eu já tinha visto esse livro quando estava no Ensino Médio, tenho uma amiga que é super fã da Clarice e ela tinha, eu era doida para ler mas nunca pedi emprestado... Confesso que não sabia do que se tratava, apenas achava que seriam os melhores textos dela. Aliás, sempre esqueço que ela era jornalista. Eu amei sua resenha! Me deixou com mais vontade ainda de ler este compilado de obras da nossa musa escritora!

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    Respostas
    1. Eu nunca tinha ouvido falar, até esse dia me aventurando na Amazon. Fiquei doida na hora que vi e comprei mesmo! kkkk
      Eu acho que meio que não sabia que ela foi jornalista. Só sabia do Correio Feminino por causa da adaptação que fizeram no Fantástico, na época eu adorei.
      Existem outras compilações de parte da obra dela como essa. Tem o "Clarice na cabeceira: crônicas", e também o de contos e de romances. Aí não sei como eles devem ser, mas tenho vontade de comprar o de crônicas.
      Muito obrigada pelos elogios! Fiquei muito feliz com essas comentários lindos que você deixou por aqui <3

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