Confira!

"Suspenso da polícia e com um ferimento de tiro no braço, as coisas não vão nada bem para o investigador Medeiros. Até que ele aceita o trabalho de recuperar a joia roubada de uma milionária excêntrica - e tudo piora. Entre várias garrafas de uísque e embalado por Nina Simone, Medeiros é lançado em um rastro sanguinário na busca pelo Espoir, o diamante mais precioso do mundo. Como se não bastasse, é seguido de perto por alguém cuja única ambição é tirar sua vida. Com humor ágil e cortante, Álvaro Cardoso Gomes conduz o leitor pelas ruas frenéticas e mal iluminadas da noite paulistana. A sutileza com que o autor pinta o mistério aproxima As joias da coroa da aura do romance policial clássico, assim como da mais envolvente safra do bom e velho filme noir."

Autor: Álvaro Cardoso Gomes
Gênero: Romance policial
Número de páginas: 340
Local e data de publicação: São Paulo, 2011
Editora: Tordesilhas

Prometer muito e deixar a desejar


Esse foi um dos livros que comprei em uma feira em que todos os títulos custavam R$ 10,00, e que passou por Goiânia em março. E de início, já aviso que foi uma bela lição pra que eu tome mais cuidado antes de comprar um livro sem conhecer o autor, sem saber bem sobre a história ou sem ter nenhuma recomendação prévia, só porque estava barato. Digo isso porque foi uma completa decepção.
As Joias da Coroa é um romance policial brasileiro que acontece na cidade de São Paulo nos dias atuais. Aqui, o protagonista é Douglas Medeiros, um policial que mora e atua no subúrbio da cidade e que passa os dias entre o trabalho, seu apartamento imundo, bares, bordéis e motéis baratos. Quando a história começa, ele está temporariamente suspenso do trabalho por ter praticado abuso de autoridade, e então, para passar o tempo, ajudar um amigo e ainda ganhar um pouco de dinheiro extra, decide aceitar um trabalho particular (coisa que ele não devia fazer): investigar o furto de um broche de safira que pertence a uma milionária inglesa, a Dona Elizabeth.
Dona Elizabeth é uma mulher idosa porém muito ativa, lúcida, inteligente e de humor irônico. Ela mora em uma casa enorme, com seu cão Charles e sua inusitada família que mais parece ser composta por personagens do núcleo cômico de uma novela das sete: seu filho José Roberto, mal-educado, preguiçoso, que nunca trabalhou nem estudou e que vive às custas da mãe; sua nora Vilma, uma "vadia interesseira", segundo as palavras usadas na narração; e o irmão dela, o Souza, um cafetão. A primeira impressão que tive sobre Vilma e Souza foi de que poderiam muito bem ser os típicos "pobres que enriqueceram dando um golpe" presentes em qualquer novela da Rede Globo, e ao longo da história eles fazem tudo o que se espera de tal papel.
Mas o furto do broche não era nenhum crime perfeito ou bem planejado. Logo Medeiros descobre os responsáveis pelo sumiço da joia e volta ao seu trabalho normal. Ele continua realizando pequenos serviços para dona Elizabeth, que confia bastante nele. Ao mesmo tempo, ainda tem que lidar com a perseguição de um ex-policial que se aliou a um grupo de traficantes contra ele. Logo, as coisas voltam a se agitar na mansão da lady inglesa, e ele se sente responsável pela segurança dela e por,(digamos assim) manter a ordem na família dela.

Imagem compartilhada no meu Instagram durante a leitura.
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"Se a rotina num DP é estafante, se o salário é uma merda, se você, de uma hora pra outra,
pode levar um tiro e ficar estropiado, pelo menos uma coisa vale a pena:
num Distrito Policial de periferia, ninguém morre de tédio."
Página 137.

A história é narrada em primeira pessoa pelo protagonista, que utiliza muitas expressões coloquiais e palavrões, o que faz com que a leitura seja rápida e muito parecida com uma história que poderia estar sendo contada por um amigo durante um churrasco. O problema é que algumas dessas expressões não são muito usuais, o que pode deixar o leitor confuso.
A história também contém muitas referências à própria cidade de São Paulo; os nomes de diversos lugares da cidade são citados, o que dá a impressão de que o autor conhece bem a cidade. Também existem algumas referências à literatura: Douglas Medeiros lê livros de Dashiell Hammet e dona Elizabeth é adoradora de histórias policias clássicas, como os romances de Conan Doyle e Agatha Cristie e os contos de Poe sobre o detetive Dupin.
Uma coisa que me incomodou bastante nesse livro foi em relação ao personagem principal. Eu só tenho duas palavras para adjetivar Medeiros: babaca e nojento. Em primeiro lugar, ele acha que é grande coisa só porque é policial. Em todos os lugares, as pessoas o chamam de "doutor" e o enchem de favores e bajulações. No bar que ele frequenta, por exemplo, a melhor bebida e a melhor comida são reservadas pra ele - isso porque ele pode "dar um jeito" em qualquer bandido que pense em praticar um assalto. Ele também acha que tem alguma autoridade a mais sobre as outras pessoas quando não está trabalhando. Logo no início do livro, ele relata uma situação em que seu apartamento foi invadido por bandidos que queriam matá-lo. Antes de entrar em casa, ele percebe o que está acontecendo e sobe para o próximo andar, entra no apartamento que fica acima do dele e desce pela sacada, pra pegar o invasor de surpresa. No fim de tudo, o vizinho vem (e com razão) reclamar do prejuízo causado por ele, começando pela porta arrombada. Ele trata o vizinho com arrogância e deboche, e ainda se sente no direito de fazer ameaças, sendo que era o vizinho que podia denunciá-lo por invasão de domicílio. Meio folgado esse cara, né?
Além disso, Medeiros é um completo machista. Ele fala das mulheres como se fossem pedaços de carne, literalmente. Pra ele, elas podem ser classificadas como "filé mignon", "filézinho" ou "carne de terceira". Ele ainda usa outros termos pejorativos como "tribufu", "mocreia", "piranha" e coisas semelhantes. Pra ele, todas as mulheres são interesseiras e só atrapalham a vida de um homem. E ainda se pergunta por que não consegue arranjar mais nenhuma namorada! Ele ainda tenta passar aquela imagem de que não gosta de gente rica, por serem pessoas arrogantes, e que prefere pessoas pobres e simples, mas não é bem assim. Quando ele conhece uma moça que trabalha em uma joalheria elegante, ele acredita que ela "merece" ser amada e respeitada, só porque ela é branca, loira tem olhos claros, é bem educada e filha de um estrangeiro. Por que as outras mulheres com quem ele se relaciona não merecem respeito?
A segunda coisa que me incomodou, e a maior delas, é o fato de o livro não ser aquilo que promete.
A sinopse vende uma coisa grandiosa, com enredo e narrativa bem construídos, o que não acontece. Vamos analisar a frase final: "A sutileza com que o autor pinta o mistério aproxima As joias da coroa da aura do romance policial clássico, assim como da mais envolvente safra do bom e velho filme noir". Em primeiro lugar, não existe sutileza nenhuma nessa história. Os personagens são extremamente rasos, talvez exceto por dona Elizabeth. Os familiares dela não são nada além do que eu disse no início da resenha, e Medeiros é só um cara metido a herói que se acha engraçado e conquistador. Não existe nada daquilo que acontece em romances policiais, como o fato de as pistas estarem bem "na cara", mas de forma que a gente só percebe quando o mistério é solucionado, e a gente fica se perguntando: "Como eu não notei isso antes?". Não, não é assim. É tudo muito previsível. Desde o início eu já sabia quem tinha roubado o broche de dona Elizabeth. Mais tarde, quando acontece um sequestro, eu também sabia quem era o responsável pelo crime e por qual motivo. Só fiquei surpresa com o local do cativeiro, mas enquanto lia, eu só conseguia pensar: "Quando é que vão revelar tudo que eu já sei há muito tempo?".
Pela falta de sutilezas, eu acredito que a história não tem nada a ver com romances policiais clássicos. Isso fica bem explícito durante um diálogo entre Medeiros e dona Elizabeth, quando ela questiona as leituras dele, visto que ele lê romances policiais violentos, enquanto ela prefere as histórias de Poirot e Sherlock Holmes, em que o detetive, como ela mesma diz, "usa mais a cabeça do que os músculos" (Página 172). Julgando a partir daí e das rápidas pesquisas que fiz, eu diria que o livro é muito parecido com os filmes noir, que são histórias policiais protagonizadas por um detetive ou policial meio canalha e não muito respeitoso com a lei. Nisso, a sinopse está certíssima. Mas As joias da coroa não poderia nunca ser comparado ao mesmo tempo com romances policiais clássicos.
Sem falar no fato de que o título tem uma ambiguidade que gera uma piada de muito mau-gosto: "As joias da coroa" pode se referir ao diamante Espoir, que foi apelidado de "O diamante da coroa" por ter pertencido ao rei Luís XIV, mas pode também se referir ao fato de que dona Elizabeth não abre mão de deixar à mostra suas joias, e então a "coroa" seria ela. Pra mim esse título pegou muito mal, assim como todas as outras piadas feitas ao longo do livro.
E falando no Espoir, eu acredito ainda que a sinopse faz muita propaganda sobre ele, o que gera duas consequências. A primeira é que no início acreditamos que a joia roubada foi mesmo esse diamante raríssimo, quando na verdade foi um broche de safira; a segunda é que o conflito principal da história, isto é, o sequestro, se torna óbvio, e já sabemos que os sequestradores vão exigir o diamante como resgate.
Enfim: eu não gostei nem um pouco. Só continuei lendo porque gosto de insistir nas histórias pra não correr o risco de perder uma boa leitura ou de fazer um julgamento falso. E eu também precisava fazer a resenha. A única coisa que me divertiu ao longo da história foi dona Elizabeth, que é a única personagem realmente interessante aqui. No mais, é apenas um livro bonito com páginas roxas na lateral e ótima diagramação, que não cumpre o que promete.
Recomendo o livro para quem já tenha lido outros livros do autor e goste, ou para quem goste dos tais filmes noir.

Avaliação geral:

Onde comprar:

Aspectos positivos: o uso de linguagem coloquial torna os diálogos divertidos e mais adaptados à realidade brasileira; as referências à cidade de São Paulo colaboram para a ambientação da história.
Aspectos negativos: a história não tem relação romances policiais clássicos, ao contrário do que afirma a sinopse; os personagens são superficiais e estereotipados; o enredo é previsível.

Por: Lethycia Dias


Esse é o primeiro livro que estou resenhando para o projeto Bingo Literário! Está na categoria "Nacional".

4 Comentários

  1. Caramba Letícia, estou impressionado com a sua disposição. Praticamente dissecou a história e, de lambuja, deixou sua impressão sem qualquer escrúpulo. Acompanho o seu trabalho a um tempo, adorei o projeto '12 meses com Poe', aliás um dos autores que sou apaixonado. As vezes custo a acreditar que tenha tão pouca idade, visto que desfila uma opinião, se é real ou preconceituosa não importa, com absoluta propriedade. Parabéns, mais uma vez. Queria aproveitar a oportunidade para pedir-lhe um obséquio, se puder. Eu reuni em um arquivo alguns contos de minha autoria e gostaria da sua opinião a respeito. São um total de 18 contos em um pouco mais de 40 páginas. As temáticas são diversas, mas sempre ressaltando a relação das pessoas com a realidade que as cerca. entenderei se não tiver disponibilidade. Obrigado.

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    1. Olá, Marcelo! Fico muuuuito feliz com o seu comentário, você não imagina o quanto! Gosto de ser bem sincera e detalhista nas minhas resenhas, e acho que só o tempo pra fazer a gente ir melhorando. Quanto mais tempo de blog, mais eu fico satisfeita com as minhas resenhas, e mais exijo de mim mesma na hora de escrever. São várias e várias revisões, de acordo com a antecedência com que preparo os posts...
      Sobre a leitura dos contos, infelizmente vou precisar recusar. Os dois últimos pedidos de resenha que recebi foram em dezembro, e desde então decidi passar um tempinho sem aceitar novos pedidos, pra poder organizar melhor as leituras. Tenho muitos livros acumulados, e quero dar prioridade a eles, vender, trocar ou doar os que não tiver gostado e abrir espaço para livros novos. Por isso, mesmo que eu goste muito de conhecer novos autores, to abrindo mão de pedidos de resenha por um tempo. Espero que compreenda.

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  2. Credo que livro horrível! E pensar que quase comprei por estar custando 10 reais e ter paginas roxas nas laterais. Eu não leria. Gosto dos livros de suspense por sua sutileza, e até curto uns mais violentos por assim dizer como os do Harlan Coben e até mesmo Dan Brown mas você como leitora de ambos autores sabe que eles constroem todo um mistério por cima. O problema não é o noir, é o protagonista. E esse núcleo de novela das 7 se repete desde Memórias de um Sargento de Milícias, desde os "agregados" da família Santiago em Dom Casmurro. Só que nesses casos eles tinham uma outra função na narrativa. Sua resenha está muito bem feita, muito bem estruturada, e incrivelmente trabalhada. Confesso que eu ri no "babaca e nojento". Pena que o horário não permite palavras mais fortes hahahaha
    Parabéns por essa resenha. Foi épica!

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    1. Sério que você já esteve prestes a comprar? Ainda bem que escapou dessa! Confesso que a beleza do livro me atraiu bastante quando eu comprei, mas eu tava impressionada com o que li na sinopse, depois de ler achei um desserviço porque o livro não é o que a sinopse vende. Cheguei à conclusão de que poderia ser um bom livro pra leitor iniciante, poderia ser aquele livro certo pra alguém que nunca leu nada na vida. Mas pra gente, que já conhece um pouco mais, que já leu muita coisa de qualidade, coisa mais ou menos e coisa ruim, é péssimo. Sobre os parentes da dona Elizabeth: eu não podia deixar de comparar eles com personagens de novela. Enquanto lia, eu pensava na Vilma e no Souza como na Carminha e no Max de Avenida Brasil, só que muito menos espertos kkkk. Sobre o protagonista, eu não consegui lidar com essa personalidade dele, me senti totalmente desrespeitada com o que ele pensa e fala sobre mulheres, coisa que eu acho que nunca tinha sentido antes em outros livros com personagens também machistas.
      Obrigada por esses elogios todos, agora vou ficar me achando! kkkkk

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