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Resenha: O papel de parede amarelo
"Esse clássico da literatura feminista foi publicado originalmente em 1982, mas continua atual em suas questões. Escrito pela norte-americana Charlotte Perkins Gilman, ele narra, em primeira pessoa, a história de uma mulher forçada ao confinamento por seu marido e médico, que pretende curá-la de uma depressão nervosa passageira. Proibida de fazer qualquer esforço físico e mental, a protagonista fica obcecada pela estampa do papel de parede do seu quarto e acaba enlouquecendo de vez. Charlotte Perkins Gilman participou ativamente da luta pelos direitos das mulheres em sua época e é autora do clássico tratado Woman and Economics, uma das bíblias do movimento feminista. Esta edição de O papel de parede amarelo, que chega às livrarias pela José Olympio, traz prefácio da filósofa Márcia Tiburi."


Autora: Charlotte Perkins Gilman
Gênero: Conto
Número de páginas: 112
Local e data de publicação: Rio de Janeiro, 2016
Tradução: Diogo Henriques
Editora: José Olympio
Onde comprar: Amazon | Livraria da FolhaSaraiva

Mulheres que rastejam


Descobri O papel de parede amarelo quando ele foi lançado no ano passado, com ampla divulgação no mês de março, devido ao Dia Internacional da Mulher. Desde aquela época, eu dizia a mim mesma que precisava ler este livro.
O livro é formado por um conto escrito em 1982 por Charlotte Perkins Gilman, escritora e intelectual feminista estadunidense. É escrito em forma de diário, com as reflexões íntimas de uma mulher que apresenta problemas emocionais, classificados por seu marido e médico como "uma depressão nervosa passageira - uma ligeira propensão à histeria" (Pág. 12). Os dois se mudam para uma casa de campo, onde ela poderá descansar, respirar ar-fresco e se curar de sua doença.
Instalada em um quarto com grades, a mulher de imediato se incomoda com o papel de parede amarelo que decora o cômodo. Proibida de fazer esforço ou as coisas de que gosta (como escrever), ela passa a maior parte de seu tempo tentando decifrar o estranho padrão de desenhos aparentemente sem sentido. Ela emprega muita energia mental a isso e à tentativa de esconder do marido seus verdadeiros pensamentos e sentimentos, pois ele não a compreende, especialmente no que diz respeito à forma que o papel de parede a incomoda.
Conforme o tempo passa, a mulher encontra um sentido no papel de parede. Parece haver uma mulher escondida atrás dos desenhos disformes no primeiro plano, tentando fugir de algo que a prende. E ao descobrir que isso diz respeito a ela mesma - pois ela é uma mulher presa pelo casamento, pela vida privada e doméstica - a protagonista acaba por desafiar simbolicamente o que lhe é imposto a ela. E com isso, acaba se entregando definitivamente à loucura.
A narrativa foi considerada por muito tempo um conto de terror psicológico, comparada às histórias de Edgar Allan Poe. Talvez seja algo realmente muito assustador. Para a autora, era mesmo, pois o que ela pretendia era criticar a forma com que o casamento prendia (e ainda prende) mulheres à vida privada e familiar, fazendo com que fiquem sempre atreladas às responsabilidades de cuidar de uma casa, ter filhos, criá-los e educá-los, abrindo mão de seus trabalhos, sonhos e ambições.

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"Que amarelo mais estranho o desse papel!
Faz-me pensar em todas as coisas amarelas que já vi -
não as belas, como os ranúnculos, mas as velhas, repugnantes e vis."
Página 51

Este é um livro bem curto, com pouco mais de cem páginas, e portanto, pode ser lido em um dia só. O único motivo de eu ter demorado alguns dias foi porque eu andava bem ocupada e precisei reler para entender melhor. Aliás, caso você não tenha receio de spoiler's, recomendo que leia primeiro o posfácio, pois as informações contidas nele são fundamentais para a interpretação da história.
Uma das características principais do conto, e também um dos seus maiores méritos, é de mostrar o quanto doenças e transtornos emocionais/psicológicos/psiquiátricos são estigmatizados e negligenciados pela sociedade. Isto porque John, o marido e médico da protagonista, subestima a inteligência de sua esposa. Ele parece tratá-la de forma carinhosa, mas na verdade é como se dissesse que ela é boba, que não merece ser levada a sério. E, em certo momento, o conto expõe claramente a forma com que a sociedade ainda hoje trata pessoas com esse tipo de problemas: "Ele diz que ninguém além de mim pode me ajudar a sair deste estado; que devo usar minha força de vontade e meu autocontrole e não me entregar a fantasias tolas." (Pág. 37). "Usar a força de vontade" é uma solução quase sempre apresentada por pessoas leigas para quem tem depressão. A charge abaixo ironiza isso, nos colocando para imaginar como seria se as pessoas falassem de outras doenças como falam da depressão:

Se é absurdo falar assim com alguém que está machucado ou com alguma dessas doenças,
por que falamos assim sobre a depressão?
Fonte: Reprodução.

Outra das caraterísticas é demonstrar a forma com que a "loucura" é considerada como uma característica feminina. Mulheres são consideradas emocionais, enquanto homens são considerados racionais. Mulheres ficam "loucas" durante a TPM. E John, o marido e médico, não dá importância ao incômodo que a mulher sente em relação ao papel de parede. É tudo coisa da cabeça dela, não é mesmo? "Você imaginou tudo isso". Isso se chama gaslighting, e é o que acontece quando alguém tenta invalidar seus sentimentos, fazendo você parecer uma pessoa louca (BEIRA, 2015). Acontece especialmente em relacionamentos abusivos. John faz, inclusive, com que a esposa se sinta culpada por estar doente, pois ele é tão inteligente, a ama tanto, e ela está dando tanto trabalho fazendo com que tenham que morar nessa casa e dormir nesse quarto horrível! 
E o maior dos fatores presentes nesse livro é o grande protesto de Charlotte Perkins Gilman contra o aprisionamento da mulher na vida doméstica e privada, construído historicamente. Aos homens, foi dado o espaço público, a liberdade de ir e vir, a independência econômica, a liberdade de expressão, a possibilidade de "fazer história". À mulher, o reino do lar e dos filhos. O que uma mulher poderia querer além disso? Charlotte Perkins Gilman queria mais, queria estudar, escrever, se manifestar intelectualmente. Mas não podia, porque desde que se casou pela primeira vez estava presa às suas responsabilidades de esposa, enquanto para seu marido, tudo permanecia igual. Ela faz essa crítica de maneira sutil no conto, embora esse seja o principal elemento da história. "[...] estou absolutamente proibida de 'trabalhar' até me restabelecer." (Pág. 13). Não é à toa que ela esconde seu diário tanto do marido quanto da cunhada, e para de escrever quando sabe que eles estão por perto: "Lá vem John; preciso pôr isto de lado" (Pág. 18), pois "Não tenho dúvidas de que ela [a irmã de John] pensa que foi a escrita que me deixou doente." (Pág. 26) e "[...] ele [John] detesta que eu escreva" (Pág. 18).
A mulher escondida no segundo plano do papel de parede luta para fugir do espaço privado, escapando para o espaço público. Ela simboliza a luta da própria Charlotte para continuar escrevendo, e de tantas mulheres que na época dela, e até hoje, continuam lutando para poderem exercer sua intelectualidade. Um exemplo disso é o fato de, em Universidades, muitos orientadores recomendarem às suas orientandas de graduação, mestrado e doutorado que "não engravidem", porque "vai atrapalhar".
A mulher do papel de parede rasteja para fora de sua prisão. Seria intenção da autora dizer que muitas de nós rastejam? Afinal, a protagonista não tem nome, o que faz com que acreditemos que poderia ser qualquer mulher. Qualquer mulher rastejaria. Charlotte também rastejou. Inúmeras mulheres na história rastejaram, e eu rastejo nesse exato momento. Então, que rastejemos até não existir mais nenhum papel de parede amarelo.

"É muito difícil falar com John sobre o meu caso, porque ele é tão inteligente e me ama tanto."

A diagramação é conveniente ao propósito do livro, que é de nos fazer "investigar" o tal papel de parede, assim como a protagonista. As ilustrações da capa nos fazem pensar imediatamente no padrão e no subpadrão do papel de parede. Durante a leitura, eu me peguei observando a capa para tentar entender as descrições do papel de parede, inclusive tentando enxergar as grades que escondem a mulher do segundo plano. E a pergunta que não queria calar: quem será a mulher na capa? Fiz uma pesquisa rápida no Google, a fim de conferir se era a própria Charlotte, e cheguei a achar parecida com ela, mas pelo formato do nariz, vi que a mulher da capa do livro é outra.
As páginas e o tamanho do texto tornam a leitura bastante rápida e confortável. A fonte grande fez com que o texto parecesse maior do que realmente é, então logo estamos virando uma página, depois outra e mais outra. As páginas são amareladas e grossas, porém de textura agradável.

Avaliação geral:

Onde comprar:

Aspectos positivos: A apresentação e o posfácio apresentam informações indispensáveis para um bom entendimento do conto; o conto faz alusão à negligência praticada contra pessoas com doenças ou transtornos emocionais/psicológicos/psiquiátricos e à estigmatização da loucura como característica feminina; a crítica ao estabelecimento do "lugar da mulher" como restrito à vida privada é sutil porém facilmente reconhecível após a leitura do posfácio; a diagramação atende ao propósito do livro.
Não há aspecto negativo a ser ressaltado.

Referências bibliográficas:
BEIRA, Gabriella. Glossário de termos do feminismo. Em: Revista Capitolina, 14 de julho de 2015. Disponível em: <http://www.revistacapitolina.com.br/glossario-de-termos-feminismo/>. Acesso em: 02 de abril de 2017.

2 Comentários

  1. Lethy, que resenha maravilhosaa!! Eu quero muito ler esse conto! Você esmiuçou todas as entrelinhas! Parabens!!

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    Respostas
    1. Oi, Lívia! Recomendo que leia sim! Eu senti a necessidade de falar dele em todos os aspectos, sabe? Principalmente no que diz respeito ao tratamento duvidoso, que é um ponto muito sensível pra mim. A conversa com a Hel no nosso grupo me ajudou bastante, e imagino quanto você deve ter ficado curiosa! Obrigada pelo carinho, amiga! <3

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