Confira!


"Nesta antologia, magistralmente organizada pelo escritor Flávio Moreira da Costa, o leitor vai encontrar quase três mil anos de excelente leitura. Uma literatura de caráter específico e que vicejou mesmo nos momentos históricos mais sombrios: a literatura de humor. De Homero a Veríssimo, reúne-se aqui o melhor do gênero. Tanto quanto a arte de contar histórias, imperiosa necessidade humana, a capacidade de rir tem se mostrado indispensável à sobrevivência da espécie rir do que está à volta e, sobretudo, rir de si mesma. Os tipos de humor, como aqui se verifica, são os mais diversos. Tão numerosos quanto os autores que o vêm praticando. O humor pode ser brincalhão, infantil. Ou ganhar contornos mais densos, transformando-se em sátira, crítica social ou de costumes. Pode ser franco, resultando em gargalhada, ou ser mais voltado à reflexão, contido, sutil. Varia, ainda, conforme a cultura local: é o humour e o wit inglês, o spirit e o burlesco francês; o tragicômico e o melodramático do Norte europeu; o racional e o absurdo da Europa Central. Assumindo, enfim, as feições mais distintas do pastelão e da mais escrachada chanchada ao sofisticado e corrosivo, o humor esteve (e está) presente em praticamente todas as tradições literárias, em todos os tempos. E, não raro, mostrou-se perigoso, ameaçando a vida dos que ousaram apontar a graça do mundo."

Autor: Flávio Moreira da Costa
Gênero: Contos
Número de páginas: 562
Local e data de publicação: Rio de Janeiro, 2001
Tradução: Diversos tradutores
Editora: Ediouro

De risinhos a gargalhadas


Pelo título de livro e pela sinopse, você já deve ter adivinhado qual o conteúdo deste livro. Porém, se ainda estiver curioso(a), vou tentar fornecer uma explicação melhor: uma centena de contos, produzidos por escritores das mais diversas nacionalidades, épocas e culturas, reunidos num só lugar. Todos, é claro, com a proposta humorística. Eis o que temos aqui. Imagine então, no mesmo livro, ler palavras de Homero e Esopo; de Cervantes e Maquiavel; de Voltaire e do Marquês de Sade; de Edgar Allan Poe e de Mark Twain; de Machado de Assis e Oscar Wilde; de Anton Tchecov e Lima Barreto; de Franz Kafka e Scott Ftzgerald; de Nelson Rodrigues e Millôr Fernandes. Do mais célebre escritor, imortalizado na literatura, ao anônimo cuja história caiu na tradição oral. Você encontra tudo isso em Os 100 melhores contos de humor da literatura universal.
Entre as histórias, os temas são os mais variados e inusitados possíveis. Uma guerra entre ratos e rãs; um mercador que ao levar um golpe, devolve-o de forma pior; um demônio enviado para viver na terra, afim de experimentar o casamento; um homem que perde o próprio nariz; um elefante branco descontrolado, causando o caos em toda a região; uma obra de arte obscena; um homem cuja cabeça "não regulava"; o homem que finge saber um idioma que ninguém conhece; a candidata a miss que não ganha o concurso; a garota seduzida por um peru; uma partida de futebol contra americanos e japoneses. Se você se surpreendeu com isso, saiba que o livro ainda lhe reserva muito mais.
É sempre difícil resenhar um livro de contos, pois cada detalhe sobre uma história, pode ser um spoiler. Por isso, me contentei em citar alguns dos temas, que certamente devem ter despertado sua curiosidade. Difícil também é permanecer atenta às diferenças culturais, sociais, econômicas e históricas entre tantos escritores e escritoras, que condicionam elementos importantes nas histórias. Imagine que a graça do conto Amor, escrito pelo persa Saadi, não pode jamais ser igual à de No Escuro, escrito pelo russo Anton Tchecov em pleno século XIX. Não, não é possível. Cada história possui sua própria maneira de despertar a atenção do leitor, para então surpreendê-lo e diverti-lo (não necessariamente nessa ordem).

"De fato, era inacreditável.
Se tivesse perdido um botão, uma colher de prata, um relógio ou outra coisa qualquer...
mas logo o nariz, justamente algo tão precioso; como?
E, o cúmulo, na sua própria casa!"
O Nariz - Nicolai Gogol. Página 175.

Organizados em ordem cronológica de nascimento dos autores, os contos atravessam o tempo, desde antes de Cristo até meados do século XX. Por vezes, nos deparamos com mais de um conto escrito pelo mesmo autor. E cada vez que um novo autor nos é apresentado, Flávio Moreira da Costa nos informa sobre o período em que viveu, e deixa um parágrafo biográfico sobre cada escritor. Notas de rodapé se fazem presentes ocasionalmente, bem como os nomes de tradutores, nos casos em que a tradução não tenha sido feita pelo próprio Flávio.
Alguns dos contos são hilariantes, e nos fazem rir a cada novo parágrafo; outros, porém, parecem não ter nenhum sentido, até que chegamos ao ponto em que tudo se conecta. Esse último é o caso de A obra de arte, de Tchecov; enquanto que o primeiro seria bem representado por O corcunda recalcitrante, que integra a coletânea das Mil e uma noites. Para rir a todo momento também são boas opções O homem da cabeça de papelão e O peru de natal.
Alguns contos, porém, não parecem atendar à proposta de fazer rir. O conto Uma modesta proposta, de Jonathan Swift, por exemplo, é como uma espécie de carta em que o narrador-personagem descreve sua brilhante ideia para resolver um problema da época na Inglaterra: a grande população de moradores de rua. Para "eliminar" tal incômodo, o personagem propõe, nada mais nada menos, o consumo da carne dessas pessoas, que seriam iguarias valiosas para os mais ricos. A meu ver, ou a história toda era uma grande ironia e eu não percebi, ou essa proposta não tem graça nenhuma. Creio que esse foi o conto que chegou a realmente me incomodar, e ouso dizer que eu o detestei.
A seleção de Flávio também me desagradou em outro ponto: a ausência de mulheres. Até existem algumas, mas são tão poucos que os homens acabam predominando o tempo inteiro. Ao longo da leitura, eu fiquei atenta e fiz marcações no sumário, para chegar à conclusão de que foram selecionadas apenas 4 mulheres em milhares de anos de História. Não sei quais foram os critérios usados por ele para essa escolha, ou quais as dificuldades de teve com direitos autorais, mas senti muita falta de um pouco de voz feminina.


"Com a falta do socorro oportuno, o fidalgo piorou
e terminou entregando a alma muitíssimo a contragosto.
O ano de sua morte foi de grande alegria para os meninos herdeiros da aldeia
que comeram toda a colheita da venerável nogueira."
Oito Nozes - Emilia Pardo Bazán. Página 260.

Alguns incômodos, porém, não reduzem a genialidade da seleção e da obra como um todo. Lendo todos os contos do livro na ordem em que foram colocados, eu me senti como se viajasse através do tempo. Primeiro na Antiguidade Clássica, para passar pela Idade Média, Renascença, séculos XVIII e XIX, e chegar ao XX. Foi incrível contemplar não só as mudanças culturais, históricas e sociais, mas também de técnicas narrativas. O livro tornou-se muito mais agradável, com certeza, quando cheguei à página 127, quando Edgar Allan Poe nos introduz àquela que foi a era de ouro do conto. O século XIX foi, com certeza, a época em que os contos tomaram maior importância, e não é por acaso que no livro haja tantos textos de escritores que viveram em tal época.
Este livro em alguns momentos vai fazer você dar pequenos risos, mexendo a cabeça de um lado para o outro devagar; em outros, o fará soltar gargalhadas, alegre por lido uma história genialmente construída. Eu o indico para todos os amantes de contos, e também para quem queria apenas aliviar um pouco o estresse e dar boas risadas.

Contos que merecem destaque:
- O corcunda recalcitrante - As mil e uma noites;
- Os três ceguinhos de Compiègne - Anônimo;
- O sermão de Nasrudin - Khawajah Nasr Al-Din
- A megera domada - Charles & Marry Lamb;
- O Nariz - Nicolai Gogol;
- Uma das de Pedro Malas-Artes - Anônimo;
- O roubo do elefante branco - Mark Twain;
- O capitão do Camelo - Ambrose Bierce;
- Oito nozes - Emilia Prado Bazán;
- A obra de arte - Anton Tchecov;
- A pílula - Stephen Leacock;
- O homem de cabeça de papelão - João do Rio;
- O homem que sabia javanês - Lima Barreto;
- O peru de natal - Alberto Manzoni;
- O homem nu - Fernando Sabino;
- As salvaguardas nem sempre salvam - Millôr Fernandes.

Aspectos positivos: excelentes histórias humorísticas; informações biográficas sobre os autores; organização em ordem cronológica; seleção de textos escritores por autores de diversas nacionalidades e culturas.
Aspectos negativos: seleção de histórias de humor pouco compreensível; seleção de poucos contos escritos por mulheres.

Por: Lethycia Dias

6 Comentários

  1. Olá, obrigada pela visita lá no Literaleitur?

    Eu adoro livro de contos, mas nunca li nenhum do gênero humoristico, acho que assim como você descreveu, deve ser muito divertido.

    Parabéns pela resenha ;)

    Beijokas da Quel
    http://literaleitura2013.blogspot.com.br

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    Respostas
    1. Olá, Raquel!
      Se não leu ainda, eu recomendo que procure por alguma antologia com urgência! Recomendo autores como Luís Fernando Verissimo e Fernando Sabino, cujas histórias são sempre divertidas (ambos estão nessa seleção do Flávio Moreira da Costa).
      Muito obrigada pela visita e pelo comentário, e seja bem-vinda ao Loucura Por Leituras!

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  2. Nossa, me interessei. Vou anotar agora na lista de desejados. Eu gosto bastante de ler contos, e esta seleção parece incrível! Vou adorar fazer essa viagem através do tempo!

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    1. Você precisa conhecer esse livro, eu simplesmente adorei a leitura!

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  3. Triste um fator contra ser "ter poucas histórias escritas por mulheres". Como se "ser escrito por mulher" fosse um critério literário. "Ah, esse livro é ruinzinho, mas foi escrito por uma mulher, então..." ou "Nossa, isso é perfeito! Mas foi escrito por um homem... que pena". A boa escrita não é feita com o gene XX nem com órgãos genitais, por isso, ela deveria ser impessoal e independente de detalhes irrelevantes. Se um escritor é um bêbado inveterado ou abusa de crianças, sua obra vai ser menor por isso? Enfim, não pude deixar de comentar.

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    1. Olá, Delis.
      Você está em um espaço pessoal que pertence a mim. Aqui, eu divulgo minhas impressões sobre os livros que leio. Em quase dois anos de blog, tive um grande crescimento principalmente no que diz respeito às avaliações dos livros. Minhas primeiras resenhas não passavam de resumos das histórias, e com o tempo fui aprendendo que resenhar não é nada fácil, e que criticar exige muito mais responsabilidade do que elogiar. Por isso mesmo, estou aqui para uma resposta ao seu comentário.
      Por muito tempo, mulheres foram privadas do direito à instrução ou educação (que hoje é considerado um Direito Humano, e que em alguns lugares ainda é negado). Sendo assim, somente homens eram produtores de "cultura" e "conhecimento". E mesmo as poucas mulheres que eram instruídas, acabavam sendo também privadas disso. Jane Austen, por exemplo, publicou algumas de suas obras assinando: "By a Lady". As irmãs Brontë também ocultaram suas verdadeiras identidades, usando pseudônimos. Já na primeira metade do século XX, Virginia Woolf questionava a pouca importância que se dava aos trabalhos intelectuais produzidos por mulheres, e um de seus contos, chamado "Uma sociedade", é uma forte crítica a isso. Décadas depois, essa desvalorização ainda permanece de certa forma. É sabido que J. K. Rowling abreviou seu primeiro nome ao publicar Harry Potter porque seus editores temiam uma "perda de público" caso todos soubessem que o livro havia sido escrito por uma mulher. Estes são apenas alguns exemplos ilustres, para mostrar o que quero dizer. Realmente, a escrita não é feita com os genes e muito menos com órgãos genitais. Mesmo assim, as pessoas fazem julgamentos de acordo com isso.
      Existiram e existem sim grandes escritores estrangeiras e brasileiras, que podem não estar recebendo o devido crédito ou reconhecimento por suas obras. Você tem o direito de discordar da minha crítica, é claro, mas estou convicta da minha opinião. Assim como você questiona minhas afirmações, eu também questiono as decisões do organizador da coletânea. Ninguém além dele mesmo sabe quais critérios ele utilizou para definir o que é "bom". Na minha resenha, eu poderia ter apenas afirmado: "Esse livro é muito bom" ou "Esse livro é muito ruim", sem fornecer nenhuma explicação para isso, e então cada pessoa teria a liberdade que quisesse para questionar a credibilidade de uma resenha sem argumentos. Mas enquanto leitora, eu expus o que me agradou e o que me incomodou na obra, e mantenho minhas opiniões.
      De toda forma, agradeço pelo comentário, críticas são sempre bem-vindas.

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