Confira!

"Este livro é um dos produtos do Projeto Berra Lobo - comunicação e conhecimento compartilhados, no seu primeiro ano de existência. Os textos presentes brotaram do diálogo, da experiência e dos conflitos entre mundos separados, não pelos quase 500 km de distância, mas simbolicamente por uma falsa hierarquia cultural. São crianças e jovens que viajam ao encontro de outros mundos, se deixam afetar por eles e constroem narrativas sobre esse processo. Na outra ponta da estrada, estão os trabalhadores da terra, professores e lutadores, que já descobriram, por força da experiência de produzir as condições de sua própria vida, que os comunicantes precisam ser cotidianamente alimentados de esperança, desejo de transformação e, no seu bojo, ações libertárias concretas."


Autores: Professores da FIC (Faculdade de Informação e Comunicação) e alunos de Jornalismo, Educação Física e Artes Cênicas da UFG (Universidade Federal de Goiás)
ISBN: 978-85-8083-123-8


Fruto de um projeto que pretende pensar uma nova maneira de exercer a Comunicação - dando visibilidade aos invisíveis, voz aos mudos, importância aos ignorados - Berra Lobo: palavras andantes surgiu a partir de uma iniciativa de aproximar universidade e movimento social popular. Para fazer uma citação mais esclarecedora, "Uma parceria do movimento social popular, no caso o MST e o Laboratório e Coletivo Magnífica Mundi, ligados ao Núcleo de Jornalismo e Diferença, do Curso de Jornalismo, UFG. Retoma-se algo iniciado ainda nos anos 80, do século passado." (Berra Lobo: palavras andantes. Página 30: Berra Lobo, um projeto e os sonhos).
Reunindo relatos dos estudantes em visita ao Assentamento Oziel Alves Pereira, no município de Baliza (na divisa com Mato Grosso, a cerca de 500 km de Goiânia - GO); e ao acampamento Hugo Chávez, em Corumbá - GO (cerca de 100 km da capital); e também de integrantes do movimento, este livro pode ser, em sua essência, uma nova forma de pensar não só o jornalismo, como também a educação e a relação entre o campo e a cidade, hoje separados por uma invisível - porém inflexível - cerca de preconceitos e desigualdades. Cerca? Daquelas de arame-farpado? Talvez seja um muro, bem mais alto do que imaginamos. Voltando ao livro... Impossível lê-lo sem inteirar-se da importância da Reforma Agrária, principal luta do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra. Mais impossível ainda seria não mudar pensamentos e conceitos após a leitura.

"Para nós, os modos de contar e de narrar a vida é que fazem a diferença.
Por isso, a multiplicidade de vozes, a polissemia,
constitui a nossa meta primordial."
Angelita Pereira de Lima,
professora de Jornalismo da UFG e coordenadora do Projeto Berra Lobo. (Página 50)

A leitura deste livro foi, em resumo, uma sequência de encantos. Encantei-me porque conheci histórias de pessoas que o mundo ignora, que foram consideradas como iguais; porque foi quebrado o tabu, foi derrubado o preconceito com um movimento que busca igualdade e dignidade; porque cada página virada era uma nova surpresa.
Da explicações iniciais acerca do projeto, dos textos de integrantes do movimento, das descrições das oficinas criativas oferecidas pelos estudantes às crianças que estudavam nas duas escolas do Assentamento Oziel, até as mais simples histórias contadas, e à maravilhosa entrevista com o homem conhecido como Cigano, cada palavra foi uma descoberta. Descobri sobre o quanto é bom oferecer oportunidades àqueles que não as tem; o quanto se aprende com os mais simples, os mais jovens (refiro-me às crianças que receberam as oficinas); o quanto é bom nos distanciarmos de nossa zona de conforto, de nossa realidade, para conhecer o mundo alheio; o quanto é bom compartilhar experiências tão repletas de sensibilidade.

"Nas chamadas oficinas, que focam a apropriação e uso de novas tecnologias
para comunicação, como artes e esportes,
se busca ampliar as possibilidades de os envolvidos - crianças, jovens e adultos -
se legitimarem como produtores de sentido."
Texto coletivo. Berra Lobo, um projeto e os sonhos. Página 31.

Talvez o mais importante a ser ressaltado seja a quebra de barreiras. Quem vive no campo não deveria viver separado de quem está na cidade; não deve se abster de contribuir com opinião e história; e não deve se conformar com as injustiças sociais. Da mesma forma, a quebra de estereótipos vem para libertar mentes e aproximar pessoas. O MST procura proporcionar igualdade, embora poucos se deem conta dos malefícios históricos do latifúndio que domina o sistema agrário do Brasil. Que divide, separa. Que devasta, degrada. Que maltrata. Se algo parece errado no modo como a Comunicação é feita nos meios de massa, outras possibilidades podem ser oferecidas através da internet, que está visível para o mundo. E um movimento popular pode distribuir esperança e corrigir incoerências sociais.
Me emocionei com essas e outras reflexões durante a leitura do Berra Lobo. Vi confirmados alguns dos meus ideais como aluna de jornalismo. Inclusão, serviço social, responsabilidade, compromisso com a verdade. Gostaria, na verdade, de ter feito parte do grupo que viveu tal experiência. Como não estava ainda na faculdade, o que me coube foi descobrir nas páginas do livro o que eles viveram. E cada palavra lida valeu a pena.

Por: Lethycia Dias

"Uma repórter em busca dos acontecimentos que não viram notícia e das pessoas que não são celebradas. Uma cronista à procura do extraordinário de cada vida anônima. Uma escritora que mergulha no cotidiano para provar que não existem vidas comuns. O mendigo que jamais pediu coisa alguma. O carregador de malas do aeroporto que nunca voou. O macaco que ao fugir da jaula foi ao bar beber uma cerveja. O doce velhinho dos comerciais que é também uma vítima do holocausto. O homem que comia vidro, mas só se machucava com a invisibilidade. Neste livro, você encontra essas e outras histórias extraordinárias da vida real. Ao final, também descobre algo sobre si mesmo."

"Aqui se revela um dos segredos de Eliane para compilar suas história: a empatia enigmática que estabelece com suas fontes." - Marcelo Rech
"Ao ler o que Eliane escreve hoje, ninguém mais poderá dizer que já não se produzem grandes repórteres como antigamente." - Ricardo Kotscho


Autora: Eliane Brum
ISBN: 978-85-60-171-00-2

A capa cinzenta com uma fotografia desfocada já demonstra a primeira intenção da autora com as crônicas-reportagens de A Vida Que Ninguém Vê: revelar ao mundo que algo – ou alguém –, em algum lugar, não é visto pelos outros. E com "os outros" entende-se o comerciante que abre sua loja todos os dias, a dona de casa que vai ao mercado, o empresário que mora num bairro elegante, o aluno que caminha até a escola; a sociedade em geral.
O livro é constituído por histórias de personagens que o mundo simplesmente ignora. Abre os olhos das pessoas para convencê-las a enxergar seres humanos invisíveis, colocados à margem. Talvez ao olhar para uma dessas pessoas na rua você não imagine que haja algo de impressionante na vida dela, e isto que faz da obra de Eliane Brum tão diferente: ela imaginou; procurou conhecer estes personagens reais que ninguém conhecia, procurou dar-lhes voz e apresentá-los ao mundo. Como diz o próprio resumo do livro, Eliane buscava o extraordinário de cada vida anônima.
A vida imita a ficção, ou a ficção imita a vida? Não se sabe mais responder a esta pergunta depois de  ter lido este livro. Se cada história parece ter sido imaginada por um escritor urbano, o que mais surpreende é o fato de saber que nenhuma delas foi inventada – todas elas aconteceram de verdade, e foram publicadas no ano de 1999, numa coluna semanal homônima do jornal Zero Hora de Porto Alegre. Muito impressionados, os leitores elogiavam a repórter, que ganhou o Prêmio Esso Regional no mesmo ano. Reunidas posteriormente num livro, as crônicas renderam a Eliane o Prêmio Jabuti de melhor livro de reportagem, em 2007.

"Eu não faria um convite daqueles a qualquer um. [...]
 A ideia estava ancorada na convicção de que tudo – até uma gota d'água –
pode virar uma grande reportagem na mão de uma grande repórter."
Prefácio escrito por Marcelo Rech

Em sua prosa de olhar sensível e humano, Eliano Brum relata os fatos como se lhe foram apresentados, mas sem a suposta frieza que se imagina de uma jornalista. Ela, ao contrário, nos faz refletir sobre tantas histórias que nunca antes foram contadas, sobre tantas vidas que ninguém notou. O título do livro não é por acaso!
Colocados em evidência, os personagens destas histórias receberam, cada um, uma fotografia como espécie de "abertura" da crônica em que aparecem. São imagens em preto e branco, ainda desfocadas, mas cada uma contendo um ponto que é destacado, em que pode-se notar a parte mais importante. Por isso eu poderia dizer que o livro não trata-se de um simples produto jornalístico: é, por si só, uma obra de arte, no que diz respeito à prosa e à estética. É maravilhoso, em suma.
E como alguém poderia não se sentir chocado ao ler sobre o rapaz de 29 anos que, ao seguir um garoto até a escola em que estudava, teve sua vida modificada por uma professora? Como esquecer de Adail, cujo maior sonho era voar? O enterro de pobre, "triste menos pela morte e mais pela vida"? Ou o álbum de fotos, cheio de recordações não se sabe de quem? Cada uma destas histórias é maravilhosa por mostrar não o inusitado, não o inesperado, mas justamente aquilo com estamos acostumados a ver todos os dias. E que, surpreendentemente, ainda é capaz de gerar encanto.

"Se de perto ninguém é normal, de perto ninguém é herói. [...]
Um ser humano, qualquer um, é infinitamente mais complexo e fascinante
 do que o mais celebrado herói."
Sobre a melhor profissão do mundo - Eliane Brum

Este é um livro para aqueles que procuram se surpreender. É um livro para aqueles que estão cansados de histórias de amor, ou de crimes, ou magia e aventura. É um livro cheio de realidade, para quem gosta de encarar o mundo de frente. E é nada mais nada menos do que incrível.

Por: Lethycia Dias

"Campeão nas listas de mais vendidos em todo o mundo, traduzido para quarenta países, o O livreiro de Cabul foi considerado pela crítica um dos melhores livros de reportagem sobre a vida afegã depois da queda do Talibã. Após conviver três meses com o livreiro Khan, em Cabul, a jornalista norueguesa Åsne Seierstad compôs este retrato das contradições extremas e da riqueza daquele país. Por mais de vinte anos, Suntan Khan enfrentou as autoridades para prover livros aos moradores de Cabul, e assistiu aos soldados talibãs queimarem pilhas e pilhas de livros nas ruas. Por meio de uma narrativa envolvente, Åsne Seierstad dá voz à família Khan, apresentando uma coleção de personagens comoventes que reflete as desigualdades do Afeganistão."

ISBN: 978-85-7799-108-2
Autor: Åsne Seierstad




Trabalhado como correspondente de guerra desde 1994, a jornalista Åsne Seierstad esteve no Afeganistão logo após a queda do regime talibã. Na capital do país, Cabul, ela logo conheceu a livraria de Sultan Khan, um homem apaixonado pelos livros e pelo conhecimento trazido por eles, e passou a frequentá-la. Convidada para jantar em sua casa e conhecer sua família, teve a ideia de escrever um livro sobre a vida daquelas pessoas, que Sultan logo aceitou. Vivendo com a família Khan por três meses, Åsne fez uma reunião de impressionantes histórias ligadas à família, algumas presenciadas por ela, e outras das quais apenas ouviu falar.
Trata-se de um daqueles livros que se pode ler numa sequência aleatória, pois as histórias contadas, embora estejam organizadas com capítulos numerados, não seguem uma ordem cronológica. A autora vai aos poucos tecendo os fios de uma rede de pessoas reais, retratadas fielmente, para contar sobre suas vidas. O que se vê como resultado é um livro fascinante, repleto de emoção, sem perder aquele sabor da "vida real".
As contradições, entretanto, são visíveis. Sultan pode ser um homem que tem amor pelos livros e que busca sempre pela cultura, mas que domina a família com pulso firme, não permitindo que seus próprios filhos busquem outro futuro que não seja o de trabalhar em sua livraria. O Afeganistão, país de cultura árabe localizado no centro da Ásia, está repleto de tradições milenares que não podem ser quebradas nem mesmo pelo avanço dos tempos atuais: a permissão da poligamia, os casamentos arranjados e todas as restrições à liberdade feminina talvez possam chocar quem nunca teve um contato mais próximo com essa cultura. Nesta obra, os costumes que regem a vida se fazem tão presentes como nos livros de Khaled Hosseini, O Caçador de Pipas e A Cidade do Sol.
Outra presença importante, e talvez impossível de ignorar, talvez seja a sombra da guerra civil que durante anos tomou conta do país, seguida pelo regime extremista talibã, que, embora houvessem acabado, deixaram um rastro de morte e miséria pelas ruas e campos de todo o país. É esta a impressão que temos ao nos confrontar, mesmo que através das páginas de um livro, com os afegãos: uma população sofrida, que parece ter sido abandoada à própria sorte.

"Fiquei em Cabul durante a primavera, logo após a queda do Talibã. Havia uma tênue esperança no ar. As pessoas estavam felizes por se verem livres do Talibã, não precisavam mais ter medo de serem importunadas na rua pela polícia religiosa; as mulheres podiam novamente andar sozinhas na cidade e estudar; e as meninas podiam voltar à escola. Mas a primavera também trazia as marcas dos desapontamentos dos últimos dez anos. Por que ficaria melhor agora?"

Através da narrativa séria e profunda da autora, que consegue nos revelar o íntimo dessas pessoas que vivem em um mundo tão diferente do nosso, baseando-se apenas naquilo que presenciou ou nos relatos que ouviu, o envolvimento do leitor é inevitável. Identificar-se com os sofrimentos destes seres humanos, compartilhar de seus sonhos vãos e revoltar-se com aquilo que para eles está certo, mas que para nós, por questões culturais, pode ser cruel. Eis o que certamente lhe acontecerá caso procure por esta leitura que tanto me impressionou.

Por: Lethycia Dias

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