Confira!


Algum tempo atrás, fiz um post crítico sobre os downloads gratuitos de livros, dando ênfase para o pouco acesso que os brasileiros têm à leitura. Grandes livrarias, como Saraiva, Cultura, Leitura e Fnac estão presentes apenas nas maiores cidades do país, dentro de shoppings. Na falta delas, restam os sebos e bibliotecas públicas (estas existem em quantidade insuficiente, e nem sempre são bem-cuidadas pelos governos locais). Quanto às compras online, nem todo mundo se beneficia com elas, pois o preço do frete varia muito de acordo com a região do país, e as promoções de frete grátis quase sempre contemplam apenas as regiões Sul e Sudeste (para as quais o frete já é normalmente barato).
Hoje, decidi voltar para falar de um outro problema muito comum no Brasil, que é quando a leitura não é incentivada. Lembra do Ministro da Cultura falando que o baixo índice de leitura dos brasileiros era uma vergonha? Ele mora em Brasília, centro de poder do país, onde não faltam livrarias. Mas, se você mora em uma cidade interiorana, fica meio difícil comprar seus livros, não é verdade?
E mesmo se você mora em uma grande cidade, mas fora do eixo econômico-político-turístico do país, as coisas continuam sendo não tão legais assim. Goiânia, onde eu moro, é um bom exemplo disso.
No dia 03 de março, teve início a Feira TOP Livros, que permanecerá no Shopping Araguaia até 3 de abril. A grande novidade é o fato de que essa feira de livros tem preço único: R$ 10,00. Assim que fiquei sabendo, minha ansiedade foi imensa, e eu só conseguia pensar no quanto seria maravilhoso visitar a tal feira. Acabei indo na última segunda, e fui feliz. Voltei para casa com sete livros novinhos, quantidade que jamais seria possível comprar com setenta reais em um dia normal numa livraria.
Ao longo do dia, fiquei refletindo sobre os motivos para tanta ansiedade, e acabei chegando à seguinte conclusão: eu queria tanto ir porque simplesmente não me lembrava de ter ouvido falar de alguma outra feira de livros em Goiânia. Nunca. Nenhuma outra vez, em quatro anos morando aqui. Por isso, só por isso, não perdi tempo, e já aproveitei a feira logo nos primeiros dias. Eu não podia perder a oportunidade.
Goiânia é uma grande cidade, e tem importância considerável na região Centro-Oeste, mas por aqui a valorização da cultura não acontece como deveria, e na verdade, não passa de mero "circo" ofertado pelo Estado para distrair o povo (depois de ter dado o "pão", é claro). Vou explicar por que estou dizendo isso.

Goiânia tem 3 bibliotecas públicas.
O censo do IBGE de 2010 estimou a população de Goiânia para 2015 em 1 milhão e 400 mil pessoas. É a capital do Estado, e também a cidade mais importante, e muito populosa. Entretanto, na cidade inteira, existem apenas três bibliotecas públicas (aqui, não estão incluídas as bibliotecas de escolas, universidades ou acervos particulares; são contadas aquelas que são abertas para todo o público). Este dado é de um levantamento feito pelo Sistema Nacional de Bibliotecas Públicas. As três bibliotecas que cito são: Biblioteca Municipal Cora Coralina, Biblioteca Municipal Marieta Telles Machado e Biblioteca Estadual Pio Vargas. Será que preciso falar sobre como isso prejudica o acesso aos livros, em geral, e também ao estudo e ao conhecimento?

Um jornal local já criticou isso.
Estou falando da matéria intitulada Um país sem bibliotecas, publicada no jornal Diário da Manhã em maio de 2015, assinada pela Redação e por Daiana Pretoff. O que motivou a publicação do texto foi o descaso por parte do governo estadual em criar uma biblioteca no Centro Cultural Oscar Niemeyer, um importante local para eventos culturais e artísticos na cidade. A matéria cita dados de um levantamento feito pelo Portal Qedu, da Fundação Lemann, apontando que em toda a região Centro-Oeste, apenas 63,6% das escolas públicas têm biblioteca ou sala de leitura.

Eventos voltados para literatura são raridade.
Como sempre estou interessada em poder compartilhar meu amor pelos livros com outras pessoas, pesquiso muito por eventos de literatura, como feiras de livros, lançamentos, sessões de autógrafos, entre outros. Quando faço essas pesquisas, me sinto como se morasse no fim do mundo. Eu encontro toda sorte de eventos em outras cidades, como Rio de Janeiro, São Paulo, Fortaleza, Porto Alegre, e até em Brasília, mas raramente aqui. Quando grandes editoras anunciam laçamento de algum livro, com presença do autor e tudo o mais, Goiânia nunca está incluída. Para dizer que acontece alguma coisa por aqui, podemos citar alguns raros lançamentos de livros de escritores locais; o sarau Sábado no Parque, que ocorre mensalmente; além da Turnê Intrínseca anual, que no passado esteve aqui pela primeira vez.

Temos uma Bienal do Livro "fantasma".
Certa vez, pesquisando sobre eventos literários em Goiânia, acabei descobrindo sobre uma tal de Bienal do Livro de Goiás, que já havia acontecido, e da qual eu nem tinha ficado sabendo. Na verdade, eu nem sabia que existia uma Bienal goiana. Parece que ela existe, mas não chega nem aos pés da de São Paulo e da do Rio de Janeiro, que são amplamente divulgadas. Ela foi criada não se sabe quando, e acontece com não se sabe que frequência, porque simplesmente não consegui encontrar um site informativo sobre o evento. Parece que certa vez ela aconteceu em Goiânia, mas isso foi em 2009, e não há notícias de edições mais recentes.

Escolas nem sempre incentivam a leitura.
Já falei sobre isso aqui em outro post. No colégio onde estudei, a biblioteca era um espaço mínimo e muito mal-cuidado. Não havia uma pessoa responsável por fazer os empréstimos e receber devoluções, e a porta quase sempre estava trancada. O mais irônico era que os professores, coordenadores e até o diretor achavam legal e "bonitinho" ver que eu e meus amigos líamos sempre, mas não faziam nada para que outros estudantes fossem assim. E isso, é porque estudei num colégio muito bom, apesar de periférico. Imagine como estão as coisas nos colégios com os piores índices?


Esses são alguns fatores que me levam a afirmar que o livro, a escrita, a leitura e o conhecimento não são valorizados em Goiânia, e imagino que as coisas devem ser parecidas em outras cidades do Brasil. Essa é a uma realidade triste para o nosso país. Então, se o índice de leitura no Brasil é de 1,7 livro por ano, isso não é só porque "o brasileiro não lê". O governo também tem sua parcela de responsabilidade por isso, e a solução ideal seria patrocinar artistas e eventos (divulgando-os de forma que toda a população fique sabendo) e financiar a construção de mais bibliotecas públicas e escolares. Mas é claro: prefeitos e governadores preferem desviar dinheiro público para seus próprios cofres, ou financiar eventos de menor importância, como desfiles de escolas de samba. Infelizmente.
Quanto à famosa frase "o brasileiro não lê", recomendo o vídeo maravilhoso feito pela Amanda Castejon, do blog Amável Utopia, que decidiu falar um pouquinho sobre isso:


Esse foi um post crítico, sobre a pouca valorização da leitura na cidade de Goiânia, mas tenho certeza de que você se identificou com o que eu disse. Comente, vamos conversar sobre o assunto!

Por: Lethycia Dias.

Referências Bibliográficas:
CURTA MAIS. Goiânia recebe Feira TOP Livros com preço popular no Shopping Araguaia. Disponível em: <http://www.curtamais.com.br/goiania/especiais/conteudo/goiania-recebe-feira-top-livros-com-preco-popular-no-araguia-shopping/2016-03-02>. Acesso em: 08/03/2016.
GLOBO, O. Ministro da Cultura diz que baixo índice de leitura no Brasil é "uma vergonha". Disponível em: <http://oglobo.globo.com/cultura/livros/ministro-da-cultura-diz-que-baixo-indice-de-leitura-no-brasil-uma-vergonha-16606376>. Acesso em: 08/03/2016.
INSTITUTO BRASILEIRO DE GEOGRAFIA E ESTATÍSTICA. População do município de Goiânia. Censo 2010. Disponível em: <http://cidades.ibge.gov.br/xtras/perfil.php?lang=&codmun=520870&search=goias|goiania>. Acesso em: 03/08/2016.
OVERMUNDO. 2ª Bienal do Livro em Goiás. Disponível em: <http://www.overmundo.com.br/agenda/2a-bienal-do-livro-em-goias>. Acesso em: 03/08/2016.
REDAÇÃO; DAIANA PETROFF. Um país sem bibliotecas. Diário da manhã, 25 de maio de 2015. Disponível em: <http://www.dm.com.br/cotidiano/2015/05/um-pais-sem-bibliotecas.html>; Acesso em: 03/08/2016.
SISTEMA NACIONAL DE BIBLIOTECAS PÚBLICAS. Relação de Bibliotecas Públicas no Estado de Goiás. Disponível em: <https://docs.google.com/spreadsheets/d/1eThKphKxXSF5WzyqV73TM29q3Hke8W31g3PFOC3uuBM/edit>. Acesso em: 03/08/2016.

8 Comentários

  1. Lethycia isso é bem verdade. Eu morei no interior do Maranhão. Lá tinha uma biblioteca que não se passava de uma salinha e fui lá somente uma vez. Na minha escola que era particular, mas tinha um grande convênio com o estado (sim, é estranho, nunca vi nada igual) tinha uma biblioteca e eu usava para estudo, mas não tinha como saber quais livros tinham para ler por lá porque simplesmente não podia entrar no acervo. A bibliotecária estava sempre de mau humor. Hoje eu moro em uma cidade que é considerada a terceira melhor do Brasil. Embora tenha 400 mil habitantes, sei de duas bibliotecas, e não duvido que haja mais uma para equiparar com Goiânia. Eu conheço apenas a que fica próximo a minha casa. Nas férias sempre tem eventos para as crianças. Tem um bom acervo, literatura de vários lugares do mundo. É muito ampla e iluminada. Só não pego mais livros porque quando eu chego da faculdade já está fechada e de sábado raramente tenho tempo. Mas a população desvaloriza também. Tem uma pinacoteca é um teatro, mas você não vê os seus amigos combinando de ir ao teatro exceto quando vem algum artista famoso. Tem um projeto legal que por uns 15 reais você pode assistir a uma peça de livros que caem no vestibular. Eu fui em todos no terceiro ano. Mas será que todos os estudantes têm essa mesma condição de pagar? Tudo bem que em cada peça eles levavam uma turma de alguma escola pública. Tinha uma espécie de cota de ingressos gratuitos para as escolas. Mas os alunos estavam lá apenas para bagunçar, infelizmente(não é preconceito, eles realmente gritavam muito e atrapalhavam quem queria assistir e os atores). Posso dizer que há algum incentivo à cultura na minha cidade. Temos bons sebos, duas livrarias grandes e duas pequenas, já vi lançamento de livro e também já teve evento na livraria. Já foi feira de livro também. Mesmo assim, os grandes eventos literários ficam em São Paulo, duas horas de trem. Confesso que acabo priorizando outras coisas e raramente frequento esses eventos. Toda semana eu passo na feira de livros de Campinas, onde estudo. Nem sempre tem livros que eu quero, acho que porque acabei perdendo o interesse de tanto que fui. Mas comparando com a cidade do Maranhão, tinham duas pequenas livrarias. A maior delas foi minha alegria quando abriu. Eu ia lá toda semana. A outra vendia apenas os livros que as escolas pediam e alguns best sellers. O frete era caro e eu esperava juntar 100 reais em compras para pegar o frete grátis. Se faço essa comparação, estou no paraíso. Mas por experiência própria eu sei o que é o descaso do governo e dos próprios cidadãos com a leitura. Falta incentivo. Ah, em São Paulo as escolas públicas distribuem livros para os alunos. Meu namorado às vezes me dá os que ele ganhou naquela época já que ele não gosta de ler. Mas ainda assim a educação aqui é fraca. Tem que melhorar muito. Mas claro, já é melhor que em outras regiões do país.

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    1. É por isso que não acho muito certo quando vejo pessoas dizendo que "o brasileiro não lê". As pessoas teriam muito mais vontade, interesse (e condições) de ler, se o acesso fosse facilitado, se a cultura não fosse tão elitizada no nosso país.

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    2. O duro é: não há incentivo, cultura é caro e quando tem de graça ninguém está interessado em ir. Até porque as coisas mais valorizadas nesse país dizem respeito ao consumismo em geral. É fácil ver um shopping lotar, com pessoas de várias classes sociais, mas um museu gratuito fica às moscas.

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    3. Sim, infelizmente também tem essa parte.

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  2. É a dura realidade do nosso país, na cidade que moro só tem uma bibloteca que funciona na garagem alugada pela prefitura. O pior é que a biblotecária sai a hora que quer e quando estudantes vão lá a funcionária fica com a maior cara feia e expulsa as pessoas. Fico arrasada e envergonhada com uma coisa dessas. http://charmosando.blogspot.com.br/

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    1. Que horror! E assim, ela acaba espantando as pessoas interessadas.

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  3. Puramente a nua e crua realidade do nosso país. Não há uma valorização à leitura na maioria das cidades e escolas. Estudei meu ensino fundamental e ensino médio no interior, e foi justamente isto que presenciei. Pouquíssimos alunos têm o hábito de ler, e somando com o fato das autoridades e da própria instituição de ensino não incentivar devidamente a leitura e promover a literatura no meio escolas, resulta-se em uma grave deficiência no grau de leitura dos brasileiros. É triste sabermos disto, e torço que este quadro um dia possa se reverter, que os governantes possam investir mais em bibliotecas públicas, e em eventos de literatura ao público. Ler é essencial na construção de conhecimento crítico, e consequentemente, em cidadãos mais autônomos e conscientes.

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    1. Acho que a deficiência do grau de leitura é a parte mais triste disso. Na minha turma do primeiro ano do Ensino Médio, a maioria dos alunos lia muito mal. Durante as atividades, quando a professora pedia que alguém lesse algo em voz alta, eu ficava decepcionada com alguns dos meus colegas, que liam devagar, parando nas palavras difíceis, perguntando "Peraí, o que é isso?". Esses colegas tinham muita dificuldade dos estudos. E só a prática e o incentivo podem mudar isso.

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