Confira!

"As crônicas dessa antologia se consagram como pequenas obras-primas de emoção, baseadas nos espantos e alegrias, decepções e surpresas do cotidiano. Contam a história de um país e de um gênero que outrora foi considerado menor. Fenômeno de aceitação popular, a crônica superou o preconceito e se instalou como iguaria fina, assinada por mestres da nossa literatura. Amorosa, bem-humorada, leve e refinada, a crônica brasileira conquistou seu lugar e investiu um estilo, modo de escrever e viver. Mistura as artes do espírito sensível com os fatos da atualidade, mesmo que seja aquela realidade passando embaixo apenas da janela do autor. Pois é falando na primeira pessoal com voz poética ou perplexa, jornalística ou irônica, que o cronista nos encanta. Craque do gênero, Joaquim Ferreira dos Santos fez esta seleção sem se deixar amarrar pelas leis acadêmicas, mas orientando-se pelo poder que as crônicas tê de seduzir - marca essencial de todas reunidas neste volume, que se tornaram clássicos de referência da nossa educação literária e sentimental."

Autor: Joaquim Ferreira dos Santos
Gênero: Crônica
Número de páginas: 360
Local e data de publicação: Rio de Janeiro, 2007
Seleção: Joaquim Ferreira dos Santos
Editora: Objetiva
*Informações adicionais: As crônicas reunidas no livro foram escritas por diversos escritores e escritoras. Joaquim Ferreira dos Santos é considerado o autor por ter feito a seleção dos textos.
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Uma deliciosa viagem pela literatura


A faculdade tem me proporcionado boas leituras, e sempre de maneira inesperada. No semestre passado, em uma aula de Produção de Texto Jornalístico, estudamos a crônica jornalística. Lemos uma crônica de Rubem Braga, e de repente eu estava morrendo de saudade de ler e escrever crônicas, e sentindo uma falta incrível de boas referências nesse gênero narrativo tão brasileiro. Se você nunca experimentou ler crônicas, então não sabe o que está perdendo!
A crônica é um gênero narrativo que sempre teve relação estrita com o jornalismo, porque é em jornais que costuma ser publicada, em colunas periódicas, e só depois é que várias crônicas de um mesmo autor são reunidas em livros. Por isso mesmo, é difícil encontrar um cronista que não seja ou não tenha sido também jornalista. E acho uma pena que a crônica seja tão pouco falada, tão pouco apreciada, sendo um gênero tão rico e tão gostoso de se ler. Quase sempre são textos leves, curtos e muito engraçados (ou não). Por isso, acho muito importante nós, blogueiros literários, incentivarmos a leitura da crônica.
Agora, vamos ao livro!
As cem melhores crônicas brasileiras é uma coletânea organizada por Joaquim Ferreira dos Santos, e reúne textos de diversos escritores brasileiros, desde meados do século XIX até a década de 2000. Nesse período de tempo, são várias gerações e modos de vida representados por esses escritores que registravam o dia-a-dia (fosse da sociedade ou de suas próprias famílias). E justamente por isso, é muito grande a variedade de assuntos das crônicas que fazem parte do livro.
Uma teoria sobre como surgiu a crônica; o incômodo de uma calçada mal-conservada; um mendigo diferente de todos os outros; os novos hábitos na moda entre as garotas; o sonho de criação de um escritor; a vinda secreta de uma estrela de cinema ao Brasil;  nostalgia pelos tempos antigos; um aniversário comemorado da maneira mais simples possível; a estranheza de mascar um chiclete pela primeira vez; um detetive sem grana nenhuma; Papai Noel pego no flagra, porém não da forma que se espera; o inconformismo com o envelhecimento; a morte de um animal de estimação querido; a vida e os amores de uma mulher. Esses são apenas alguns dos temas centrais abordados nas crônicas, e foram os que mais me chamaram a atenção. Entretanto, o livro contém muito mais...
É também grande o leque de autores selecionados: desde escritores consagrados da literatura clássica brasileira, como Machado de Assis e José de Alencar (que eu nem sabia que haviam escrito crônicas) até nomes atuais do gênero, como J. P. Cuenca e Arnaldo Jabor, passando por alguns mestres da crônica, como Rubem Braga e Clarice Lispector.

Foto compartilhada no meu Instagram durante a leitura.
Visite @lethyd ou @loucuraporeituras e acompanhe!
"O homem só tem duas missões importantes: amar e escrever à máquina.
Escrever com dois dedos e amar com a vida inteira."
Café com Leite - Antônio Maria. Página 96.

O livro está organizado em blocos temporários, isto é: as crônicas foram divididas de acordo com a época em que foram escritas, e cada parte do livro contempla determinado período de tempo, constituído por uma ou mais décadas. Estes blocos de tempo são: 1850-1920, 1920-1950, 1950, 1960, 1970, 1980, 1990, e anos 2000. Dessa forma, as crônicas escolhidas para compor a antologia foram colocadas em ordem cronológica, o que nos permite observar uma evolução nos textos no que diz respeito à estrutura, linguagem, efeitos de sentido e outras modificações sofridas com o tempo.
É difícil classificar a linguagem do livro e afirmar se é formal, coloquial ou regional; se é fácil ou difícil de compreender. Porque, afinal, estamos falando de vários textos escritos ao longo de 150 anos por muitas pessoas diferentes. Algumas das primeira crônicas podem exigir mais atenção do que as posteriores, pelo fato de usarem linguagem bastante formal; outras contém vários termos em outras línguas, principalmente o inglês e o francês, que talvez peçam uma consulta ao Google Tradutor; a crônica Antigamente, de Carlos Drummond de Andrade só utiliza palavras e expressões antigas, que talvez você só entenda depois de perguntar aos seus avós; já outras mais contemporâneas, como as de Antonio Prata, usam termos e expressões bastante atuais, incluindo algumas gírias.
Muitas das crônicas presentes na antologia são extremamente engraçadas. Entre elas, destaco: Aula de inglês, de Rubem Braga; Salvo pelo Flamengo, de Paulo Mendes Campos; O inferninho e o Gervásio, de Stanislaw Ponte Preta; A invenção da laranja, de Fernando Sabino; Perfil de Tia Zulmira, também de Stanislaw Ponte Preta; Coisas abomináveis, de Paulo Mendes Campos; Ed Mort e o anjo barroco, de Luis Fernando Verissimo; Calcinhas secretas, de Ignácio de Loyola Brandão; e Pra você estar passando adiante, de Ricardo Freire. Outras são bastante poéticas, como: Meu ideal seria escrever e Os amantes, ambas de Rubem Braga; Gente, de Elsie Lessa; A última crônica, de Fernando Sabino; Medo da eternidade, de Clarice Lispector; e Um casal feliz, de Danuza Leão. Algumas, como O dia em que nós pegamos Papai Noel, de João Ubaldo Ribeiro, eu já conhecia de leituras anteriores.
Grande parte das crônicas, seja pelo tom humorístico, irônico, crítico ou poético, é agradável de se ler. Muitas vezes, me peguei dando gargalhadas em pleno ônibus lotado, ou me surpreendendo e emocionando quando compreendia a intenção do autor. Sem sombra de dúvidas, é um livro maravilhoso para apreciação do gênero narrativo. Além disso, a edição está muito bem feita e é extremamente bonita. Não existem erros de escrita ou de revisão. Há também uma introdução maravilhosa e muito esclarecedora, escrita por Joaquim Ferreira dos Santos.
Tenho apenas duas críticas quanto ao livro. Em primeiro lugar, sobre a falta de textos escritos por mulheres. Apenas seis dos autores contemplados são mulheres: Rachel de Queiroz, Elsie Lessa, Clarice Lispetor, Lygia Fagundes Telles, Danuza Leão e Martha Medeiros. E das cem crônicas escolhidas, somente dez pertencem a elas. Tenho certeza de que muito mais mulheres brasileiras escreveram e escrevem boas crônicas, e essa falta de representatividade me incomodou muito. O outro aspecto negativo é a grande quantidade de machismo revelado em alguns dos textos. Objetificação da mulher, incentivo ao assédio sexual e restrição à liberdade feminina são algumas das coisas que observei. Me senti muito incomodada enquanto lia Minhas bunda, de Mario Prata, que reduz as mulheres a uma parte de seus corpos. Acredito que crônicas com conteúdo como o dessa poderiam ter sido dispensadas da seleção e substituídas por outras que não seriam desrespeitosas e com certeza teriam mais qualidade.
Esses dois fatores me decepcionaram um pouco e se não fosse por eles, minha avaliação seria de cinco estrelas, mas não deixo de afirmar que é um livro maravilhoso. Não sei dizer se as cem crônicas presentes nele são mesmo as melhores brasileiras, mas a maioria delas é realmente muito boa. Recomendo muito o livro para quem já conhece e gosta do gênero e também para quem tem vontade de conhecer.

Avaliação geral:


Onde comprar:

Aspecto positivo: a introdução faz um ótimo panorama sobre a escrita da crônica no Brasil e su importância como gênero narrativo; muitas das crônicas selecionadas são bastante engraçadas e poéticas e muito agradáveis de se ler; a edição foi muito bem feita, é bonita e não contém erros, além de conter todas as referências bibliográficas e índices muito bem feitos.
Aspectos negativos: o livro contém pouca representatividade feminina e algumas das crônicas escritas por homens revelam bastante machismo.

Por: Lethycia Dias

8 Comentários

  1. Gostei muito do seu post gosto de ler o que a pessoa achou, bela resenha *-*

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    1. Bom dia, Ale, fico feliz que tenha gostado! É sempre legal vermos a opinião das pessoas sobre um livro! :)

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  2. Sempre gostei de crônicas e escrevo algumas também no meu blog. Dica anotada.

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    1. Muito legal, Dan! Fico feliz que tenha gostado da recomendação! :)

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  3. Primeiramente! EU AMEI A SUA INICIATIVA por indicar um livro de crônicas, e citar toda a importância que a crônica tem na nossa cultura. Muitas pessoas atualmente, preferem ler um post sobre moda, maquiagem, o novo Iphone, e etc e tal. Mas muitos realmente não se interessam tanto pela a crônica, histórias do dia a dia, nós como blogueiros que estamos formando nossos leitores temos, acredito eu, o "dever", de incentivar o gosto pela a tal. Os primeiros blogs de lá de 2008, todos escreviam sobre o seu dia a dia, histórias que aconteciam, criticas e tals. Isto que é legal, eu amo crônicas, também não é a toa que o meu blog, é tanto quanto pessoal. Mas enfim; sobre o livro.

    Menina tu sabe mesmo criticar um livro, hein?! Parabéns, sua resenha foi boa, citou uma das melhores crônicas que inclusive eu li e amei, foi a do Papai Noel, e ele até acaba com uma moral rsrs. Parabéns mesmo! Continue com suas crônicas, com suas dicas da Língua Portuguesa, e eu to aqui, torcendo para que um dia você consiga escrever seu livro, comprarei com toda a certeza do mundo. Já segui o seu blog, e estarei sempre acompanhando as novidades.

    Te convido a conhecer o meu blog, ele não é tão lindo e mordermo quanto o seu.. Mas é aquelas, né? rsrs

    bielgarc.blogspot.com.br

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    1. Olá, Gabriel!
      Em primeiro lugar, fico muito feliz com um comentário assim tão carinhoso e empolgado.
      Sempre ouço falar desses primeiros blogs, e hoje em dia, vendo algumas coisas que me desagradam na blogosfera, creio que eu teria gostado de blogar naquela época...
      Fico lisonjeada com esse elogio, de verdade! Tento sempre seguir uma estrutura como essa nas minhas crônicas, e fico muito atenta a tudo enquanto leio. Mesmo que eu não tenha gostado de um livro, procuro alguma coisa positiva pra elogiar, ou então o contrário.
      Essa crônica do Papai Noel é mesmo demais, né? Morro de rir com João Ubaldo Ribeiro!
      Agradeço muito por todo o seu incentivo, Gabriel, e fico mesmo muito feliz de encontrar um leitor assim entusiasmado.
      Um grande abraço!

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  4. Lethycia, fico adimirado com seu talento na escrita. A capacidade que você possui em escreve, resenhar e analisar é plausível e jus de ser divulgado e disseminado como espaços maravilhosos como é o "Loucura por Leituras". Sou seu fã, sempre quando der estarei aqui acompanhando e lendo seus posts, me sinto tão bem, obtendo informações e aprendendo muito com seus textos. Adoro crônicas, e este livro me parece ser excelente, fiquei com bastante vontade de lê-lo.

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    1. Ahhh, Lucas! Fico muito feliz de ver o carinho de uma pessoa assim mais próxima que nem você. Os comentários de outros leitores me deixam feliz, mas ver uma mensagem assim tão positiva de uma pessoa que eu conheço pessoalmente e que vejo quase todos os dias é muito melhor!
      A escrita é a minha maior paixão, e eu me orgulho muito pelo blog. Não é só um passatempo, é um exercício diário que me dá ótimas experiências! Também gosto muito de visitar o seu blog. A gente corre com as coisas, mas sempre que posso faço uma visita por lá!
      O livro é bom sim, mesmo com as coisas negativas que comentei, é maravilhoso!

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