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Resenha: O mestre e Margarida
"Em O mestre e Margarida, Bulgákov narra a chegada do diabo em plena Moscou comunista dos anos 1930. E Satanás não está sozinho; em sua comitiva, há uma feiticeira nua, um homem de roupas apertadas e monóculo rachado e um gato preto "de proporções espantosas". Tudo começa em uma tarde de primavera, quando Satanás e seu séquito diabólico decidem visitar a cidade e encontram poetas, editores, burocratas e todo tipo de pessoa tentando levar a vida em pleo regime comunista. O que todos ali não sabem é que, depois dessa visita, nada será como antes - um rastro de destruição e loucura mudará o destino de quem cruzá-lo."

Autor: Mikhail Bulgákov
Gênero: Realismo fantástico
Número de páginas: 456
Local e data de publicação: Rio de Janeiro, 2009
Tradução: Zoia Prestes
Editora: Alfaguara/Objetiva

Magia e insanidade


Apesar de estar bem presente no imaginário europeu, tendo sido inspiração até mesmo para músicas de bandas de rock, como Sympathy for the devil, dos Rolling Stones, este livro é bem pouco conhecido no Brasil. Assim, eu provavelmente não teria decidido lê-lo, se não fizesse parte do projeto Viajante Literária, criado pela Helena Machado do blog Leituras e Gatices. O projeto tem a intenção de promover a leitura de obras de escritores de diversas partes do mundo, excetuando os estadunidenses, ingleses e brasileiros, que são os livros que a Helena mais lê e que nós brasileiros, em geral, lemos com mais frequência. Então, antes da leitura, eu tinha em mãos um livro do qual nunca tinha ouvido falar e sobre o qual não sabia nada. E agora estou impressionada com o que encontrei.
O enredo é mais do que inusitado. Em plena Moscou dos anos 1930, numa tarde de primavera, o diabo surge acompanhado por sua comitiva, na qual se encontram demônios, uma feiticeira e um grande gato, que anda sobre duas patas, comporta-se como gente e até mesmo fala. O estranho grupo se aproxima da comunidade intelectual e artística de Moscou, causando a loucura por onde passam.
Paralelamente, também são apresentadas outras duas histórias de grande importância.
Uma delas é a do mestre e de Margarida, os personagens que dão nome ao título, e que, apesar de não serem os protagonistas e de demorarem a aparecer, são extremamente importantes. A parte relacionada a eles diz respeito à maneira como o mercado editorial se comportava na época em que Bulgákov viveu; e também à força do amor. A história do mestre e de Margarida é muito semelhante à de como o próprio Bulgákov escreveu este livro, ao longo de dez anos, tendo chegado a queimar uma versão inicial, e pedindo ajuda à esposa para fazer as revisões finais do texto, quando estava à beira da morte.
A terceira história que se desenrola aqui - e que por mais estranho que pareça, tem ligação com as outras duas - é como uma releitura da história da crucificação de Cristo. Pelo ponto de vista de Pôncio Pilatos, conhecemos uma nova versão que é um tanto diferente da histórica bíblica. Assim sabemos os motivos pelos quais Jesus era considerado uma ameaça e o que implicou na decisão de executá-lo e soltar o ladrão Barrabás, e sobre como Pilatos se sentia em relação a esse conflito. O que isso tem a ver com as intenções de Satanás e seu séquito infernal e com o amor de Margarida e do mestre? Eu prefiro não revelar.
Durante os dias que permanecem em Moscou - como nas outras vezes em que decidiram passear pela Terra - o diabo e seus criados espalham o caos e a loucura por onde passam. É difícil adivinhar o que pretendem, mas a partir do momento em que entendemos que nada será como antes depois de eles terem aparecido, passamos a suspeitar deles e no que os seus encontros com determinados personagens podem resultar. Então surge a suspeita: que outros eventos da história podem ter sido afetados ou mesmo causados pela passagem deles?

Imagem compartilhada no meu Instagram durante a leitura.
Visite @lethyd ou @loucuraporleituras e acompanhe!
"Quem lhe disse que não existe no mundo o verdadeiro, o fiel, o eterno amor?
Pois que cortem a língua desse verme mentiroso infame!
Venha comigo, leitor, somente comigo, e eu lhe mostrarei um amor assim!"
Página 249

Eu demorei para conseguir definir que tipo de livro era esse, porque ele é absolutamente incomum. A escrita dele faz jus à maneira fantástica com que a história se desenvolve. Ela muda de ritmo e de tom, se interrompe, é irônica, repleta de humor e inclui um narrador que por vezes se dirige diretamente ao leitor, como no trecho que destaquei acima. É uma narrativa bastante transgressora para a época, o que eu acredito que tenha colaborado para que Bulgákov tivesse destruído a primeira versão de sua obra, e para que o livro tenha sido guardado por cerca de 20 anos até sua publicação. O motivo maior para isso era o risco de censura, mas eu acredito que havia também uma grande possibilidade de que o livro não fosse aceito pelo público.
Isso gera uma reflexão bastante interessante em relação ao núcleo do mestre. Ele é um escritor que está escrevendo um romance um tanto polêmico para a época, principalmente porque seu livro implica em questões religiosas. E não digo mais nada sobre isso! Mas digo que uma das características do Regime Stalinista, vigente no período em que se passa a história, era a repressão e perseguição às religiões e igrejas. Isso fica implícito para quem não tem muito conhecimento sobre a política da época na União Soviética como eu. A questão é que o livro do mestre foi recusado por causa dessa característica do regime vigente, e com certeza a preocupação com a recusa não era um sentimento só do personagem, mas também de Mikhail Bulgákov.
O que se diz sobre este livro é que se trata de uma grande crítica ao Regime Stalinista. Eu não tenho muito conhecimento sobre o assunto (tudo o que eu achava era que em 1917 foi feita a Revolução e que todo mundo viveu "feliz para sempre", capitalistas de um lado e comunistas do outro, até que as repúblicas soviéticas se separaram décadas depois). Por isso, tive grande dificuldade em reconhecer essa crítica. Mas o que eu consegui perceber foi a maneira satírica com que o livro demonstra a repressão e a censura, e talvez até uma questão bem complicada sobre como os cidadãos dessa Rússia comunista lidavam com o dinheiro, em especial as moedas estrangeiras. Em relação a isso, o livro com certeza vai exigir uma releitura daqui a alguns anos.
A maneira como o diabo e seu séquito agem é bastante misteriosa e muito cômica. Como sabemos da presença deles desde a sinopse, ficamos o tempo inteiro tentando adivinhar quem são, o que fazem e o que pretendem, mas o livro não entrega o jogo de cara. Nós temos que acompanhar toda a história e esperar para saber mais, o que só aumenta a nossa curiosidade e a nossa vontade de ler. É muito interessante como a narração faz pequenos trocadilhos com a maneira como falamos do diabo. Estamos sempre dizendo: "O que diabos aconteceu aqui?", "Vá para o diabo que te carregue!", e outras expressões; os personagens do livro também dizem isso a todo momento, e quando o fazem na presença de Satanás, é aí que as coisas acontecem!
A narrativa genial desse livro nos faz dar risadas das coisas mais trágicas e chocantes, bem como das situações absurdas e ridículos em que os personagens são colocados ao terem suas convicções confrontadas. Existe, aliás, um grande debate sobre loucura e sanidade que vale muito a pena durante a leitura.
É um livro muito inteligente, repleto de humor e de fantasia descrita como se fosse parte do nosso mundo, o que configura o realismo fantástico como gênero literário. É uma história sobre bruxas, magia e confronto com o sobrenatural.
Acredito que seja necessário elogiar a tradução, que foi feita diretamente do russo por Zoia Prestes. Livros russos, alemães e em outros idiomas não tão difundidos pelo mundo ou pelo Brasil costumam ser traduzidos primeiro para o francês ou inglês e depois para português, o que faz com que a escrita seja muito modificada e que certos trechos percam o sentido original. Numa tradução direta, isso tem menos chance de acontecer. Ainda preciso destacar a edição, que contém maravilhosas notas explicativas com informações sobre figuras histórias da Rússia e sobre termos que não têm tradução. Sem isso, eu com certeza teria ficado muito perdida.
Não pude entender tão bem como deveria para fazer uma resenha de mais qualidade, com uma complexidade à altura desse livro. Mas gostei muito de ter descoberto essa história. Com certeza vou reler algum dia. Recomendo para quem já tem o hábito de ler escritores russos, para quem já conhece ou quer conhecer o realismo fantástico ou para quem ficou interessado pelo enredo.

Avaliação geral:

Onde comprar:

Aspectos positivos: narrativa transgressora e bastante versátil, mudando de ritmo, se interrompendo e se modificando; tom satírico e cheio de humor; presença de críticas políticas; mistério bem articulado e explicado aos poucos, incentivando a leitura a aumentando a curiosidade; boa tradução e excelentes notas de revisão, facilitando a compreensão do contexto.
Não há aspecto negativo a ser destacado.

Por: Lethycia Dias

Este livro, além de ser o primeiro que leio para o projeto Viajante Literária, é o oitavo para o desafio Bingo Literário, na categoria "Autor já falecido".


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