Confira!

"As fotos de Sebastião Salgado são famosas no mundo todo. Suas imagens em preto e branco de trabalhadores e refugiados já ganharam inúmeros prêmios e são reconhecidas pela profunda dignidade que despertam no interlocutor. Em 2013, depois de oito anos de reportagens, Salgado expôs pela primeira vez seu trabalho mais recente, "Gênesis". Em uma jornada fotográfica por lugares intocados, onde o homem convive em harmonia com a natureza, o fotógrafo retratou com brilhantismo único a múltiplas facetas da vida em nosso planeta. Mas a despeito de as imagens de Sebastião Salgado já terem dado a volta ao mundo, sua história pessoal, as raízes políticas, éticas e existenciais de seu engajamento fotográfico permaneciam desconhecidas. Em Da minha terra à terra, é seu talento como narrador que impressiona. Com gentileza e simplicidade comoventes, Salgado relembra histórias de suas fotorreportagens, realizadas em mais de cem países. Nós o acompanhamos desde sua formação como economista até a mudança para a França, onde o fotógrafo mora de 1969 e onde fundou com a mulher, Lélia, a agência Amazonas Images. Em Da minha terra à terra, Salgado fala de suas viagens, de sua família, de seu amor pela fotografia. A verdadeira gênese de sua vida e obra."

Autor: Sebastião Salgado
Gênero: Biografia
Número de páginas: 152
Local e ano de publicação: São Paulo, 2014
Tradução: Julia da Rosa Simões
Editora: Paralela

Uma declaração de amor


Eu sabia pouco ou quase nada sobre Sebastião Salgado, até o dia em que meu namorado precisou ler o livro Da minha terra à terra, para as aulas de fotografia da faculdade. Ele comprou o livro, e conforme avançava na leitura, não parava de compartilhar comigo as coisas incríveis que estava descobrindo sobre esse artista brasileiro que conheceu o mundo todo - e que se fez conhecer por ele. Dessa forma, fiquei naturalmente curiosa, e não deu pra resistir: assim que ele terminou de ler o livro, eu pedi emprestado!
E a leitura me surpreendeu: desde a primeira página, me vi transportada para uma outra realidade. Fui lendo rapidamente, e quando terminei, fiquei com aquele gostinho de "quero mais".
Salgado começa falando um pouco sobre seu projeto Gênesis, no qual fotografou a vida em nosso planeta em lugares que permanecem inalterados, preservados da intervenção humana. Ele nos explica, desde o início, que ser fotógrafo é saber esperar. E, além disso, é preciso conhecer aquilo que se fotografa. Nesse capítulo inicial, ele narra a experiência de fotografar uma tartaruga gigante da ilha Isabela, do arquipélago de Galápagos. É a partir dessa história curiosa que temos a primeira noção de que fotografar não é simplesmente preparar a câmera e apertar o botão. É muito mais do que isso!
Salgado nasceu no interior do Minas Gerais, numa fazenda em que as pessoas tinham tudo aquilo de que necessitavam. Quando precisou viver numa cidade grande, para continuar seus estudos, ele conheceu a pobreza, e deu-se conta das injustiças do mundo. Foi também nessa época que conheceu Lélia, com quem se casou. Por se identificarem com o comunismo, eles precisaram deixar o Brasil durante a ditadura, no ano de 1969. Foram viver na França, como refugiados. Lá, enfrentaram muitas dificuldades, mas trabalharam muito e sempre mantiveram o contato com outros brasileiros, e com refugiados de outros países. Economista, ele caminhava rumo ao doutorado. Ela formou-se em arquitetura. Na época em que trabalhava na Organização Internacional do Café, precisou realizar projetos de desenvolvimento econômico em países da África, e acabou se apaixonando pelo continente. Em 1973, ele decidiu largar a carreira promissora de economista e a vida confortável por uma coisa que o encantava: a fotografia. Sebastião e Lélia tiveram que se esforçar e trabalhar muito duro pelo resto da vida, investindo sempre em novos equipamentos, e a decisão valeu a pena.
No início, ele fotografava de tudo, até que começou a entrelaçar a fotografia com suas ideias políticas e sua preocupação com questões sociais. Fez séries de reportagens mostrando pessoas em seu cotidiano, intituladas "Trabalhadores". Por muito tempo, ele fotografou apenas em preto e branco. Suas fotos, sempre carregadas de muita emoção e significado, são famosas em todo o mundo.

"Fiz essas imagens porque eu tinha uma obrigação moral, ética, de fazê-las.
Alguns me perguntarão: em tais momentos de desespero,
o que é a moral, o que é a ética?"
16 - A morte vista de perto. Página 94

Quanto à estrutura do livro, trata-se de uma leitura muito fácil e prazerosa. Salgado é um homem muito simples, e escreve da mesma forma. Assim, temos uma linguagem adequada para todos os públicos e idades, e tudo é relatado de forma sucinta, sem que haja confusão entre os acontecimentos, os pensamentos e as datas. O livro é organizado em capítulos curtos, com nome e numeração. Dessa forma, a leitura se torna rápida.
Da minha terra à terra é um livro incrível, e diz respeito a muitas coisas que eu acredito, como por exemplo, a decisão de "fazer aquilo que você gosta e não aquilo que dá dinheiro", que foi basicamente uma das convicções que me levaram a cursar Jornalismo. Além de enaltecer durante todo o livro o seu amor pela fotografia, sua paixão por contar histórias feitas a partir de imagens de fração de segundo, Sebastião Salgado ainda dedica um espaço enorme à sua esposa, Lélia. Ela é seu único amor, e também sua maior companheira por toda a vida. O livro inteiro é como uma declaração de amor: à fotografia, e também para ela.
Fiz uma leitura rápida, tanto pela pouca quantidade de páginas, quanto pela linguagem simples. Muitas das histórias compartilhadas por Salgado são impressionantes. Entre elas, posso citar: sua experiência com os índios no Alto Xingu, a visita às minas de ouro da Serra Pelada, a viagem para a Sibéria, num frio entre - 30ºC e - 40ºC, a recuperação de florestas após a criação do Instituto Terra, o terrível genocídio em Ruanda, em 1994. Algumas dessas histórias me surpreenderam por apresentar visões sobre o mundo extremamente sensíveis. Outras, porque eram grandes expressões de sofrimento e crueldade.
Na graduação em Jornalismo, já no primeiro período, recebi conselhos maravilhosos de meus professores. Um desses conselhos era a ideia de que o jornalista nunca deve perder o olhar sensível. Sebastião Salgado é considerado por muitos como um fotojornalista (embora ele mesmo não concorde com isso), e se há uma coisa que o acompanha por toda a sua trajetória, é o olhar sensível. Acredito, aliás, que um bom fotógrafo - assim como um bom jornalista - não deve nunca deixar sua sensibilidade morrer.
Este livro é mais do que uma biografia. Aliás, Salgado nos leva tão dentro de seu pensamento, que quase nos esquecemos de que estamos lendo uma biografia. Eu o recomendo para todos que se interessem por fotografia, jornalismo, causas sociais, para os admiradores de Sebastião Salgado, ou para qualquer pessoa que se interesse a partir da leitura dessa resenha.

Aspecto positivo: linguagem simples, capítulos curtos, descrições e relatos sensíveis.
Aspecto negativo: a presença de termos técnicos da fotografia podem escapar à compreensão de leigos. Entretanto, a compreensão geral do livro não fica prejudicada.

Por: Lethycia Dias

2 Comentários

  1. Oi, Le!
    Tudo bem?
    Eu entrei num post do seu blog e vi a postagem relacionada do Sebastião Salgado e precisei vir ver.
    Adoro o trabalho dele e tive a honra de ganhar esse livro.
    Mandaram pra mim lá na redação do jornal.
    Acho que ele é um cara de extrema sensibilidade, um talento puro :)
    Beijo,

    Hida
    www.blogdahida.com

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Oi, Hida!
      Ai, que luxo ganhar esse livro de presente! Só pude ler mesmo porque foi emprestado... :/ Mas adorei.
      E sim, o Salgado é um profissional incrível, com grande olhar pra enxergar beleza nas coisas mais "insignificantes". Acho que você vai adorar quando ler o livro <3

      Excluir

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