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"Este é o sexto romance de Virginia Woolf. Publicado em 1931, considerado o seu melhor livro, julgamento de resto difícil diante de um conjunto de obras-primas, As Ondas é agora lançado pela primeira vez no Brasil. É neste romance que Virginia Woolf leva mais longe as características de sua ficção. Nele os seis personagens se transformam em algo como seis temas musicais que, desenvolvendo-se autonomamente, articulam-se ao longo do texto como seis vozes à procura de si mesmas e daquilo que as transcenda, que as justifique  e lhes dê sentido, talvez mesmo uma outra Voz, oculta para sempre em meio aos ruídos de uma sociedade em decomposição..."





Autora: Virginia Woolf
Gênero: Romance
Número de páginas: 222
Ano e local de publicação: Rio de Janeiro, 1980
Tradutora: Lya Luft
Editora: Nova Fronteira

Imersão e mergulho


As Ondas é, sobretudo, um livro incomum. Talvez a sinopse não deixe isso claro, mas trata-se de um livro no qual não há narração de acontecimentos. Toda a história se desenrola através dos monólogos de seis personagens: Bernard, Louis, Neville, Jinny, Susan e Rhoda, que parecem conversar entre si, em algumas ocasiões, mas na maior parte do tempo apenas divagam sobre a vida, as pessoas, o mundo ao seu redor, e é dessa forma através de pensamentos perdidos, que ninguém sabe ao certo se são comunicados ou não que a história vai se construindo. As ações dos personagens, quando afirmadas pela própria autora, são apenas o "disse" que identifica a fala de alguém diferente. Quando não é assim, são ações descritas pelos próprios personagens, em seus pensamentos que se desenrolam ao longo das páginas.
Os seis personagens, que se conhecem desde a infância, possuem uma espécie de ligação maior. Não fica claro que sejam parentes, ou qual a relação que possuem, exceto a profunda amizade. Mesmo sendo separados por algum tempo (a ida para colégios femininos e masculinos; as exigências da vida adulta), sempre há uma espécie de reencontro, que segue uma passagem de tempo e precede outra.
Cada período temporário é marcado por um pequeno trecho de narrativa. Em itálico, a autora descreve uma cena litorânea, falando do mar, do céu, de ondas que vêm e vão. Daí o título. Ou talvez esteja relacionado às ondas sonoras das vozes dos personagens, que são o principal elemento aqui.  Essas pequenas narrações são feitas como observações de um único dia, do nascer do sol ao anoitecer, e quando se acabam, representam também o fim da vida dos personagens, como se todo o tempo descrito no livro correspondesse, para as ondas, a um dia só. Essa é a parte poética de As Ondas.

"É inacreditável, porém, que eu não seja um poeta.
O que escrevi na noite passada não foi poesia? Escrevo com rapidez excessiva, demasiada facilidade? Não sei. 
Às vezes, não sei de mim mesmo, nem como medir ou nomear ou somar
os fragmentos que me fazem tal como sou."
Neville, página 63

Por acompanhar intensamente os pensamentos e sentimentos de seus personagens, é uma leitura que exige concentração, e, talvez, uma profunda imersão, para que seja possível penetrar no íntimo de cada um deles, fazendo um mergulho neste oceano. Pode ser uma leitura um tanto confusa, devido à facilidade de se perder entre as divagações de um personagem só, ou mesmo entre as de um de outro. Como os pensamentos de um mesmo personagem aparecem em vários parágrafos consecutivos, cada um iniciado por um travessão, a impressão que se tem, às vezes, é de que outra pessoa começou a falar, e assim, alguns enganos são comuns. É preciso voltar um pouco para dar-se conta de que a mesma pessoa continuar falando, ou melhor dizendo, pensando alto.
O amadurecimento dos personagens é algo interessante de se observar. Apesar de marcados pela passagem de tempo, eles quase não mudam suas convicções e ideias pessoais. É como se, desde a infância, já tivessem pensamentos e personalidades completamente formados, sem ser necessária marcação de mudanças. Paralelamente, as lembranças sempre estão presentes: o choque de Susan ao ver Louis e Jinny se beijando; o desejo tão forte de Bernard de tornar-se um grande escritor; as observações de Neville sobre Percival; o bosque em Elvedon, onde todos estiveram. Lembranças como essas são recorrentes nos monólogos.
Não há uma marcação exata do tempo. Sabemos que deve ser o início do século XX, e mais nada. Vemos Londres, vemos Edimburgo, vemos locais perdidos, não destacados: os personagens simplesmente estão neles. Talvez aí esteja mais um pouco do caráter poético de As Ondas, no sentido de que os detalhes, as informações precisas, se fazem menos importantes do que o que se pensa ou se sente. E assim, vamos compreendendo localidade e tempo, mesmo que não estejam muito bem descritos.

"Ainda assim, acho que as melhores frases são feitas na solidão."
Bernard, página 52

Talvez o pecado do livro seja retratar apenas uma burguesia sem muitas obrigações. Jinny e sua vaidade; Susan em sua fazenda; Louis, cujo pai "é banqueiro em Brisbane"; Bernard, que anota frases num caderno para usá-las quando finalmente começar a escrever seu grande romance, e que sonha com a maneira que seu biógrafo escreverá sobre sua vida. Tudo isso, além das de outras coisas mais diluídas na história jantares, bailes, encontros com pessoas importantes descreve somente um conjunto muito pequeno, muito particular, de uma sociedade, dessa Londres em que os seis personagens se perdem em pensamentos.
A sensibilidade da obra, porém, é muito grande. E ao fim, quando a onda se quebra, sabemos que algo mais também acabou de se partir.

Aspecto positivo: sensibilidade da obra; caráter poético dos devaneios de cada personagem.
Aspecto negativo: confusão causada pelos travessões, colocados quando um mesmo personagem continua falando; retrato de uma parcela pequena da sociedade.

Por: Lethycia Dias

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